Textos

12 de junho de 2013

Ó Príncipes, suas antas

Eu tenho uma filha de quatro anos, a menina dos meus olhos. Aos dois, ela já tinha um menino a quem chamava de príncipe. Como os conceitos políticos dela ainda são incipientes, acho que ela não está falando de monarquia, seja constitucional ou por direito divino. Ela pensa nos príncipes da Disney.

E quem são esses gentis homens?

Tem o Príncipe de “A Bela e a Fera”, que nada mais é que um sequestrador por quem a moça se apaixona. Isso não é amor, é Síndrome de Estocolmo.

Tem o Príncipe da Cinderela, que diz que a moça é o grande amor da vida dele, mas assim que ela vira as costas ele esquece da cara dela – meus deus, como isso é possível? Estava bêbado? Ela usou muita maquiagem? Então, ele precisa sair por aí colocando um sapato no pé de todas as garotas do reino. Sério, ele te olha nos olhos, mas, até o sapato servir, ele não vai ter certeza que é por você que ele se apaixonou. Isso não é amor, é fetichismo mesmo.

Tem o Príncipe da Branca de Neve, que está cavalgando pela floresta quando vê um caixão com gente chorando em volta. O caixão é de vidro e lá dentro ele vê uma moça linda, por quem se apaixona. O Príncipe vai lá e beija o cadáver. Isso não é amor, é necrofilia.

Tem a Pocahontas, que aliás existiu de verdade. Foi uma índia capturada pelos ingleses, foi “civilizada” por eles e apresentada por aí como exemplo de “bom selvagem”. Ela tinha uns onze anos quando conheceu o marido. ONZE! Isso não é amor, é pedofilia. Claro que ela não tem onze na Disney, mas ainda é uma história pedófila, só que com atrizes mais velhas.

E o Príncipe da Bela Adormecida? Date-rapist. Em homenagem a ele, batizaram, erroneamente o Rohipnol de “Boa noite cinderela”.

E esses príncipes entram mudos e saem calados, dando uma salvada de princesa-objeto no caminho. Chatos e insossos. Isso não é modelo de homem, nem de mulher.

Claro que nem todos são ruins.

Tem o Príncipe José Bezerra, de Enrolados. Dele eu gosto, mas ele vira príncipe por casamento, o que é uma tecnicalidade.

Tem o Bambi, um mocinho muito ligado à sua mãe. Ele vira o grande Príncipe da Floresta depois que o pai morre. Ele tem dois filhos, e ninguém está dizendo que o casamento dele é de fachada. Se ele ama os filhos e é um bom pai, ninguém deveria se importa que ele seja… bem… um cervo.

A Valente, mesmo sendo a mala sem alça reclamona que era, já tinha percebido que príncipes não estão com nada. Porcaria de príncipes.

Meninas, sejam como a Mulan, que não espera príncipe nenhum e vai à guerra para proteger sua família. A parte de se vestir de homem é opcional. Gosto é gosto.

 

Príncipes idiotas. E agora o tal moleque diz que não quer ser mais o príncipe dela. Querem saber? Acho que vou lá bater nesse menino.

 

*Imagem: Renata Angerami.

Renato Kaufmann
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