Textos

14 de março de 2014

Oi, Gregor

Eugene acordou. Não sabia onde estava. Abriu os olhos, tudo branco. Abriu as antenas, metaforicamente, e tudo cheirava a branco. Tentou se mexer e viu as suas patas, ufa, ainda tinha corpo. Tudo era tão branco que Eugene foi tomado de vertigem, uma vertigem sinestésica. Seu corpo amoleceu, quase pastoso ali dentro do exoesqueleto, e ficou largado, sem saber se já tinham passado horas. Ou dias. Ou anos.

Um dia, um ano, uma vida atrás, ouviu uma história sobre um filme chamado “Feitiço do Tempo”, em que o cara tem que viver o mesmo dia, todos os dias,  até aprender umas coisas. Só assim o feitiço, ou maldição, se desfaz. Que o ator do filme queria algo mais filosófico e escuro, e que, na versão dele,  o protagonista passa nada menos que dez mil anos vivendo o mesmo idêntico dia. Eugene percebeu que a sua situação era ainda pior, que nem tinha um dia pra repetir. Estava tudo branco.

Decidiu andar. Era um peripatético, desses que pensam melhor enquanto andam, e o som dos seus vários passos, como um metrônomo, era uma forma de contabilizar o tempo. Mas entre três e quatro mil se distraía e perdia a conta. Às vezes, esquecia: patas esquerdas depois direitas, ou cada fila alterna? Tinha medo de virar pedra. Ou virar branco. Fez experiências e alternava o ritmo das patinhas, mas sem nunca começar a dançar. Sabia que o tipity-tapity do seu hexa-pateado, por alguma razão, não seria apropriado ali.

Decidiu que iria contar o tempo em Bill Murrays. E depois de sabe-se lá quantos Bill Murrays, e obstante ausência de montras para olhar despreocupadamente, sentiu irrefreável necessidade de amigos com quem conversar. Arrancou um pedaço da sua asinha. Doeu. Fez dois furos e pendurou na antena. Se o Robinson Crusoé tinha um Sexta-feira, e o Náufrago tinha um Wilson, ele poderia ter alguém também. Olhou bem para a cara de sonso do pedaço de asa e disse: oi, Gregor.

Gregor era um ótimo ouvinte. Escutou com paciência todas as histórias de Eugene, que foi uma das primeiras baratas mutantes, que chegou até a conhecer os seres humanos, que acreditava que alguns deles ainda estariam em órbita em sua pequena biosfera, que escolheu o vício em cigarros de osso, uma arma contra o tédio, e que daria uma patinha por um desses agora. Contou das amebas gigantes de Amsterdã, que piravam em aspartame e uivavam “igoooor”, falou sobre as músicas que gostava, cantou, analisou as letras. Tinha saudade da serendipidade do rádio. Continuou andando.

Encontrou um rastro de patas quebrando a imensidão branca. Começou a gritar e chamar, sem resposta. Era a primeira coisa que via, em um bilhão de Bill Murrays, que não fosse o branco ou ele mesmo. Começou a seguir o rastro de pegadinhas e tinha impressão que Gregor fazia caretas.

 

* Ilustração de Christiane Lynn para a Confeitaria.

Renato Kaufmann
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