Textos

26 de setembro de 2012

Ilustração:
Eduardo Souzacampus

Os Imbecis

Quatro horas da manhã: Cachaça acorda em desespero, angustiado com a sua vida inteira, passado, presente, futuro e futuros alternativos. Chora e volta a dormir, apesar de acreditar que ficou acordado desde então. Clark, professor de inglês, dorme profundamente e tem pesadelos nos quais a sua mãe troca a fechadura do puxadinho, em um mundo onde ninguém mais quer falar inglês, apenas esperanto, e tenta planejar uma viagem para a Esperantolândia. O Judeu não acredita em bruxismo, mas que ele existe, existe. Acorda a cada 15 minutos, sobressaltado, com a mandíbula dolorida e a certeza de que perdeu horrivelmente a hora.

Oito horas da manhã: Cachaça, advogado criminalista, já está no escritório, pensando em quais pessoas pegas no flagra e falsamente acusadas de crimes hediondos ele pode devolver às ruas. Em poucos minutos, ele estará ganhando um boquete da tia da limpeza, avó de oito. Ela tira os dentes para chupá-lo e ele descobre, tarde demais, que é alérgico a Corega, fixador de dentaduras. A mãe do Clark traz um leite com chocolate, está na hora de acordar, filhinho. Ela dá um sorriso de canto de boca. Clark suspeita que o leite esteja envenenado, vira o copo na samambaia e volta a dormir. Judeu acorda com um gato vomitando no seu cobertor, depois se dá conta de que não tem mais gatos em casa.

Dez horas da manhã: O Cachaça já conseguiu um habeas corpus para o maníaco do parque, equacionou uma maneira de colocar mais carros nas ruas de São Paulo e conseguiu absolver Hitler, retroativamente. O Clark diz que a piada é dele. Cachaça está se coçando como um macaco nu preso em um tonel de pó de mico. A mãe do Clark pede pelo amor de deus que ele desocupe a cama, filhinho, que mamãe precisa receber um cliente. O Judeu finge que trabalha, mas, na verdade, escreve um conto. Esse conto será visto por duas pessoas, uma não vai ler e vai achar uma merda, e a outra vai mudar algumas palavras e circular pela internet, mudando também a autoria para Luis Arnaldo Lispector.

Meio-dia: Cachaça passa no hospital para ver essa maldita alergia, que já se espalhou por toda a região. Clark tenta dormir no sofá, mas o barulho vindo do quarto não deixa. Sai para dar a aula de inglês marcada para as onze. No caminho, pesquisa e descobre que a Esperantolândia não existe. Judeu telefona para o Cachaça, trocam amarguras, comentam que todos os dias são rosas de triviais misérias e aproveitam para falar mal do Clark.

Duas da tarde: Cachaça cochila e sonha que é o Rimbaud andando em ruas de palmeiras, depois que é o Rimbaud traficando armas e depois que é advogado de si mesmo. O promotor é o Verlaine. Clark descobre que alguém está errado na internet e passa o resto da tarde discutindo em fóruns online. O Judeu recebe um estranho e-mail em esperanto.

Quatro da tarde: Cachaça tenta desesperadamente dar um olé na tia da limpeza, que o procura vorazmente. Quando é finalmente encurralado, diz que vai apresentar um amigo que tem tudo a ver com ela, o Clark. Clark descobre que é um alienígena e que o sol amarelo lhe dá estranhos poderes, como o de pegar câncer. O Judeu lamenta que Clark não use seus poderes. Grandes responsabilidades uma ova.

Seis da tarde: O Judeu se dá conta que o desafio de contos só permite uma exata página, e que vai precisar encerrar sua história apressadamente nesse parágrafo, e não à meia noite, como planejado. Cachaça pergunta pra tia da limpeza se ela tem programa pra depois. Clark chega em casa e descobre que a samambaia está efetivamente morta. Corre de lá e vai encontrar o Cachaça e a tia da limpeza. Sempre tem lugar pra mais um naquela tia. O Judeu acorda no dia seguinte com uma estranha alergia e pede pra mãe do Clark caprichar no leite com chocolate.

 

* Ilustração de Eduardo Souzacampus para a Confeitaria

Renato Kaufmann
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