Textos

21 de janeiro de 2014

Quase

Ela chegou meio sem jeito. Procurou alguém pra pedir informação. Ele quase morreu de taquicardia. A música estava alta demais. Ele chegou mais perto, pra que ela pudesse ouvir. Segurou seu braço e, sem querer, roçou a barba ali onde a nuca, o pescoço e a cabeça se encontram. Falou no ouvido dela:

Um pulsar é uma estrela de nêutrons, girando tão rápido que ninguém sabe como ela não fica tonta. Estrela não fica tonta. Eu fiquei, mas pode ter sido o cheiro da sua nuca. O campo magnético dela é tão forte… o quê? Da estrela, não da sua nuca, que ela emite jatos de radiação, que atravessam todo o espaço entre e chega aos nossos olhos como uma piscada. Seus olhos são lindos. Ou como um daqueles faróis marítimos que evitam que os navios naufraguem. O farol, não seus olhos, os seus causam os naufrágios. Você é como uma sereia. Um pulsar é o que sobra depois que uma supernova explode. E ele pulsa.. Qual metade de sereia? Todo mundo diz a de cima ou a de baixo, então vou dizer a da esquerda, pra ser diferente.

Ela tentou tirar o braço. Ele segurou firme e ajeitou o cabelo dela com a ponta dos dedos.

A luz solar atravessava delicadamente o espaço, em uma distância muito mais curta que a do pulsar, aquecendo a atmosfera terrestre, a respiração dele e as gotas de suor que se formavam no pescoço dela.

Ele estava tão perto que podia sentir o gosto do sal. Ela perguntou se o ônibus 674 passava ali ou não. Ele continuou:

Um quasar é uma galáxia com um brilho ondulante, quase hipnótico, e outras radiações vindo das suas regiões centrais. Regiões centrais são como um umbigo. Um umbigo onde o suor que desce do pescoço dela deve estar se acumulando. Mas o quasar esconde um segredo: no coração desse monstro tem um gigantesco buraco negro. Sim, no meu também.Esse buraco arranca pedaços de tudo que está em volta, criando um caos que chega a incríveis temperaturas antes de ser engolido. Eu mesmo devo estar com uns 40 graus e estou em pedacinhos. Já podia ser engolido.

Foram pra casa juntos. Ele nunca pensou que isso daria certo. Teve a certeza que toda a história do Universo, o Big Bang, a formação das estrelas e planetas, a vida na Terra, a evolução, a cultura, a civilização, a linguagem e mesmo o ônibus, tudo isso tinha existido com o propósito de culminar nesse único momento. Sabia que não ia durar. Torceu para um meteoro destruir tudo antes que alguma coisa desse errado.

 

* Imagem: Teach Astronomy.

Renato Kaufmann
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