Textos

25 de julho de 2014

Beleza negra: é preciso ver pra crer

Segundo o IBGE, 27% da população brasileira é composta por mulheres negras, ou seja, a maioria das mulheres. Mas, uma pesquisa chamada A cara do cinema nacional aponta as negras como minoria absoluta no cinema brasileiro, correspondendo a apenas 4% das personagens de filmes. O que essa pesquisa mostra, no entanto, não me surpreende: nas novelas, as negras são minorias, o que temos em geral são os papeis de empregadas domésticas, o que não seria um problema se, no olhar de quem escreve tais roteiros, isso não significasse não ter vida própria, apena servir.

Alguns rebatem as críticas falando da Taís Araújo, que a meu ver é uma ótima atriz com uma carreira sólida, mas que facilmente é trocada por qualquer moça menos experiente pra ser protagonista de novelas. Outro ponto: novelas com temáticas de escravidão são as que mais aparecem negros, e a Lupita ganhou o Oscar representando uma escrava. Sabe, os negros estão cansados de serem lembrados só por essa parte da história. Eu nunca me esquecerei, contudo se esquecem de que não temos só isso pra ser mostrado. Somos mais do que mulheres que foram escravizadas.

Se não estamos nos filmes e nas novelas, também não estamos nas revistas, não estamos à frente de programas, não estamos em grande número nas passarelas e nem em campanhas publicitárias, não estamos incluídas; essa falta de nos ver em outras situações que não sejam da escrava espancada ou da empregada sem vida geram problemas muito sérios de autoestima e identidade. Afinal, como se sentir bonita num mundo que te esconde, nega e oprime?

Eu diria que isso é um dos motivos para meninas negras logo que atingem certa idade, optarem por alisar seus cabelos crespos, usarem filtros em fotografias para parecerem mais claras, ou, como vinculado em notícias recentes, passarem cremes que clareiam sua pele de fato.

Nossa autoestima é mutilada pelo racismo todo dia. Quando crianças, passamos pelas ofensas racistas no colégio: “cabelo Bombril”, “cabelo de vassoura”, “macaca feia”. Quando adolescentes, abrimos revistas para nossa idade e não estamos lá, nem em fotos e nem em dicas de maquiagem. Adultas, temos dificuldades para comprar uma base pro nosso tom de pele, já que parece que o mercado parece ter esquecido que existimos. E parece que o pessoal que te chamava de feia quando você era nova — e a menininha loira da turma era a linda — são os mesmo que não querem ter um relacionamento “sério” com você.

Isso não é uma disputa com mulheres brancas. Isso é a realidade das negras — a diferença é que as que são pobres ainda passam pela opressão de classe que tende ainda piorar o contexto racista e sexista em que vivemos. Contudo, isso também é clamor: não quero mais ver nossas vidas cerceadas pela dor de nos acharmos feias. Pela dor de não pertencer.

Esses dias, um amigo me contou que a irmãzinha dele de 14 anos é vítima de racismo no colégio. Em decorrência disso, ela se nega a tirar fotos ou usar roupas que “chamem atenção”. Uma menina que já teve sua vida marcada pela tristeza de ser oprimida tão cedo. O problema é que ela não é uma, mas várias. É só olhar essa mensagem que encontrei circulando na internet: “Meu sonho é alisar meus cabelos. Tenho dez anos, sou negra e sofro bullying de meus colegas. Meus pais não têm condição de me levar a um salão de beleza. Por isso, pedi para a minha dinda escrever” (Kauane, Porto Alegre).

O que estou tentando dizer é que a representatividade é importante; a ausência expressiva de negros é consequência do racismo, e o que se desdobra disso é mais racismo. Isso afeta a forma como nos enxergamos, como nos comportamos e até como nos relacionamos. A mulher negra que vive numa sociedade racista e machista tem dentro dela um passado de negação de sua beleza. Até quando resolvem nos elogiar dizem que somos “negras bonitas” como se ser bonita e negra fosse uma exceção. Aliás, somos consideradas belas quanto mais próximas estivermos do padrão eurocêntrico de beleza: cabelos lisos ou ondulados, olhos claros e nariz fino, etc. Não é à toa que os símbolos de beleza negra que vigoram são como: Tyra Banks, Naomi Campbell, Camila Pitanga.

Acredito que tudo se explica pela ideia: “Pode ser negra, mas que seja como uma branca coberta de chocolate”.

E se ainda acham que isso é exagero, é só lembrar dos comentários negativos e racistas que surgiram quando Lupita foi escolhida a mulher mais linda do mundo pela revista People — uns chegavam ao cúmulo de dizer que ela havia ganhado por conta de cota, como se fosse inaceitável que uma mulher como ela seja considerada o símbolo de beleza do ano.

Por isso, nesse dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra, eu espero que mais negras notem a beleza nos seus traços, nos seus cabelos, na sua cor. Mas não sou inocente: sei que essa percepção vai mudar do dia pra noite. Enquanto não houver maior representatividade negra, nós temos de nos esforçar buscando por exceções, nos esforçar para fazer parte. Sobre beleza negra, infelizmente, ainda é  literalmente preciso ver pra crer.

 

 

Imagem: Ruth de Souza, primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Stephanie Ribeiro
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