Textos

24 de Fevereiro de 2015

Individual e coletivo

Este texto é um pedido para inúmeras feministas: vamos falar sobre respeito e empatia, no sentido mais amplo que essas palavras podem ter? Respeito e empatia enquanto ingredientes de uma receita que tem como produto final a empoderamento individual e coletivo das mulheres. Afinal, o feminismo é sobre nós e para nós.

O que me fez escrever foi o incômodo que começou quando percebi que minhas energias estavam se esvaindo — não é à toa que estou perdendo peso e me sinto irritada e com fadiga. Adoecer vem se tornando comum entre as feministas, principalmente psicologicamente. Diariamente estamos enfrentando inúmeras pequenas batalhas, e algumas se encontram numa situação onde existem uma soma de outras grandes batalhas contra racismo, lgbtfobia, capacitismo e luta de classes.

Por isso vejo o feminismo tendo o papel de nos acolher. Mas existem algumas mulheres fazendo páginas para expor outras mulheres, principalmente transexuais. Algumas mulheres se esquecendo de que não somos obrigadas a concordar com tudo que pensam e dizem. Outras simplesmente mandando recados como “você é recalcada e feia.” Não entro nessa de dizer que a sororidade é a saída, até porque enquanto negra já fui silenciada inúmeras vezes em nome desse “bem maior” — que para mim só pode ser realmente praticada quando se é da mesma vertente feminista, classe social e/ou raça etc.

Acredito que estamos vivendo num momento onde se impõe muito, cobra-se muito, fala-se muito, e muito se deslegitima as ações alheias. Ninguém se importa com o ponto INDIVIDUAL se for tudo em prol do COLETIVO. Defendo que antes de falarmos no feminismo como um todo, precisamos lembrar que ele é como uma colmeia que só existe por que cada abelha existe — e trabalha para isso. E só se diferencia de uma colmeia pelo fato de não possuir uma rainha, já que se trata de um movimento horizontal, ou ao menos deveria se tratar: sem hierarquia entre pessoas/opressões.

Então me preocupo como cada mulher se sente dentro desse todo.

Tem dias que eu estou mal: não quero sair, não quero conversar, não quero ver pessoas. Só que se você diz que não pode se torna mal humorada, ou às vezes é vista como arrogante.

Tenho a impressão de que queremos sanar todos os grandes machucados gerais, causados pela nossa sociedade, sem ter o conhecimento de como curar as pequenas feridas de cada uma, causados pela mesma sociedade. Indago-me se os limites do meu ser enquanto indivíduo é às vezes desrespeitado em nome de um “bem maior”, o feminismo, ou se é apenas falta de empatia e respeito.

Por exemplo: já fui cobrada por não ir a uma manifestação. Entretanto ninguém me perguntou se eu tinha o dinheiro para o ônibus — e, no caso: não.

Parece uma pequena cobrança, mas essa gota se multiplica e é capaz de encher a Cantareira quando dita por muitas pessoas. Isso acontece e muito dentro dos meios presenciais e virtuais de militância.

Existe uma cartilha “invisível” extremamente constante que molda as ações que devem ser tomadas por uma feminista, e por incrível que pareça algumas estão mais preocupadas se a outra mantém os pelos (já vi críticas a feministas que se depilam) do que sentar numa roda (real ou virtual) e escutar as histórias de outras mulheres. A preocupação coletiva, que é embasada pela falsa preocupação individual, se esquece de que não existe um molde: somos diferentes e semelhantes. Sendo assim, eu enquanto negra com pelos ou uma mulher trans com pelos carregamos diferentes conotações e podemos ser vítimas de mais de um preconceito.

Será que temos mesmo que passar por isso para estarmos alinhadas com o modelo de militante perfeita?

Já me disseram em tom de exigência que eu deveria ter um olhar mais “agressivo” e não esse que passa uma “doçura”. Ou seja, preciso ser mais rude mesmo não sendo o meu comportamento natural, para que minhas causas tenham credibilidade? Ainda bem que meu foco nunca foi ser perfeita — nem na vida, muito menos nas militâncias, por motivos de: não quero tutores. Eu quero empatia.

Fazemos parte de uma sociedade patriarcal e católica, onde é mais fácil “tutelar”, ação que carrega uma opressão e consequente hierarquia, do que ser empático e manter respeito pelas grandes peculiaridades das demais.

E o pior é ver que tudo isso está sendo chamado de feminismo, e está carregando um grande teor tóxico, causando o agravamento das tais feridas que cada uma tem. Falamos tanto, porém poucas vezes pedimos desculpas. Mesmo dentro de um movimento horizontal de seres imperfeitos, onde erros são comuns. Assim não estamos deslegitimando o patriarcado: estamos nos auto deslegitimando. Algumas dizem que é “ensinamento”, mas parece aquela velha forma de lecionar com palmatória à mão.

Eu não sou perfeita. Ainda bem. Não quero ser, não quero ser obrigada a ler isso ou aquilo para ter voz, não quero me sentir deslegitimada em espaços por querer falar das minhas vivências, não quero falar que feminista de verdade faz isso ou aquilo, não quero fingir que não tem mulher oprimindo a outra, não quero viver o feminismo como se ele fosse uma relação abusiva e não quero fingir que estamos todas fortes sendo companheiras numa guerra, se nas pequenas batalhas individuais não nos apoiamos, pelo simples fato de não praticarmos nossa empatia e respeito.

Um movimento que não entende a complexidade e multiplicidade de cada uma não é capaz de me libertar, pois só reproduz o que me oprime enquanto mulher, enquanto negra, enquanto pobre, enquanto Stephanie.

 

* Imagem: Laura Callaghan.

Stephanie Ribeiro
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