Textos

07 de agosto de 2014

Mobilidade Urbana

Quando o assunto é mobilidade urbana, sempre vejo defesas inflamadas do metrô e da bicicleta como soluções para todos os males. Porém, essas são apenas duas opções em meio a um leque enorme de alternativas. Elas não devem ser vistas como opções excludentes, mas sim complementares, tendo em vista o emaranhado caótico e complexo que é o espaço urbano das nossas cidades. Além disso, não podemos negar a nossa realidade e esquecer que toda nossa infraestrutura foi construída para o transporte rodoviário.

Como estudante de arquitetura e urbanismo, e usuária desde criança do transporte público, o ônibus é o meu veículo principal e mais sensível.

Por quê?

Entendo a importância do metrô, principalmente para as grandes cidades, mas é um sistema caro para se implantar, e não dá pra ser introduzido em qualquer solo/local. Várias questões são relevantes nessas escolhas, e claro que cidades como São Paulo precisam de no mínimo dez vezes mais linhas do que têm, mas estamos falando diante de uma realidade de caos urbano e pouca capacidade de investimento do Estado.

O ônibus além de completar o metrô, é mais barato, mais fácil de ser implantado e pode chegar a qualquer lugar. Hoje, os ônibus são ruins e em quantidade insuficiente, por isso não me espanta que esteja aumentando o número de pessoas que compram carros; ainda mais quando o governo baixa o IPI sobre carros e motos.

Uma pessoa que pega dois ônibus, em horários não flexíveis e preço de passagem abusivo, prefere comprar um carro barato de segunda mão ou continuar dependendo de um transporte público péssimo? Sim, ela prefere o carro velho, ainda mais em cidades em que desde o inicio do processo de urbanização tiveram sua configuração pensada para o automóvel e não para pessoas, bicicletas e até mesmo transporte pluvial, mesmo tendo potencial pra isso.

Infelizmente, uma das características mais marcantes das nossas cidades é a segregação. Sendo assim, quem tem grana, tem privilégios, mora perto de onde trabalha e até pouco tempo atrás eram apenas essas pessoas que tinham acesso aos custos de um carro (considerando valor do veículo, impostos, seguro, valor da combustível, dos estacionamentos, pedágios e despesas de manutenção). Mais carros nas ruas mostram, no mínimo, três coisas: que os veículos ficaram mais baratos; que o transporte público não agrada a população; e que nossas cidades vão explodir em breve.

Em oposição a isso, surge uma defesa do papel da bicicleta e da importância das ciclovias. Para quem mora relativamente próximo ao trabalho, a bicicleta é uma ótima alternativa. Não sou contra ciclovias, mas não se cura um câncer tomando aspirina. As ciclovias e as bicicletas têm um papel relevante, mas que não o único nessa contexto. As ciclovias são opção de mobilidade, mas não são a grande solução para o problema do transporte público em nossas grandes cidades. Vale lembrar que hoje tem gente usando bicicleta porque não tem como pagar metrô/ônibus. Ou seja, pra alguns, não é uma opção.

Se você trabalha o dia inteiro em pé, se tem algum problema circulatório ou qualquer condição médica que o impeça de usar a bicicleta, se você tem quer sair do trabalho tarde da noite e precisa enfrentar uma longa distância da loja até o seu bairro na periferia, eu acredito que é seu direito ter outra alternativa digna para isso.

Já o metrô deve ser sempre pensado de forma integrada ao ônibus. Certa vez, um professor fez a seguinte comparação: o metrô é um tronco de uma árvore e os galhos são os ônibus. Não dá, na situação em que estamos, para querer curar o mal logo ali na parte mais complicada. Podemos ir pelos galhos, podando, acertando, pra que eles cresçam aos montes, bonitos e fortes. E como seria isso?

O ônibus faz parte do chamado transporte público — mas não é exatamente público, já que existe uma tarifa. A concessão do transporte é oferecida para empresas e essas empresas fecham contratos com a prefeitura, se responsabilizando pelo transporte e cobrando por isso. O transporte público é pago e é caro. Isso já limita o acesso das pessoas, e não dá pra esquecer que ele ainda não é acessível para muitos. Alguns bairros têm poucas linhas, ou ônibus em péssimas condições. Dependendo da cidade, isso é mais grave. Em Araraquara, onde morei até mudar para Campinas, por mais que os ônibus passassem na frente de casa de 20 em 20 minutos, eram velhos, fabricados antes de eu nascer. Já em Campinas, os que passam próximo de casa são novos, porém a tarifa é de $3,30. Ou seja, a situação é sempre de cobertor curto: ou é barato, ou é novo, ou passa com frequência. As três coisas nunca acontecem juntas. A população que usa o ônibus é sempre lesada de alguma forma.

Tarifas mais acessíveis, ou nenhuma tarifa por um transporte público, são as discussões mais importantes hoje sobre mobilidade urbana. Afinal, isso teria uma influência muito grande nas escolhas das pessoas e no direito à mobilidade. Outra solução que envolve ônibus e vem sendo implantada em São Paulo, com resultados positivos, são as faixas exclusivas, que já reduziram em média 38 minutos a viagem de quem usa essa forma de transporte.

Talvez eu mude de opinião um dia, porque agora ainda sou uma estudante universitária e uma usuária de ônibus, com várias críticas ao ônibus, mas me incomoda a supervalorização de alguns fatores e o desprestígio do ônibus. Mobilidade urbana, afinal de contas, é um problema de todos e hoje vejo o ônibus barato, ou de graça, em boas condições e com frequência razoável como a solução mais importante e viável para essa questão.

Indicação de leituras sobre o tema:

Por uma agenda de mobilidade urbana nas nossas cidades, por Raquel Rolnik.

México e São Paulo: cidades irmãs, por João Sette Whitaker.

 

* Imagem: Designspiration.

Stephanie Ribeiro
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