Cinema, Textos

13 de julho de 2015

What Happened, Miss Simone?

Estava empolgadíssima para assistir ao documentário What Happened, Miss Simone? — sou fã de Nina Simone e dos posicionamentos políticos que a cantora e militante tomou ao longo da vida. No entanto, após ver o documentário que vem sendo tão comentado, fiquei incomodada com as pessoas que o consideraram “maravilhoso”.

“Ah, mas você não é fã dela?”

Sim, sou fã de Eunice Kathleen Waymon, mais conhecida como Nina Simone — uma mulher incrível, com legado atemporal. Mas a sua história de vida é repleta de violência e sofrimento, como grande parte das histórias de mulheres negras que têm que resistir à dupla opressão do machismo somado ao racismo.

Não quero com isso colocar Nina como vítima — embora ela também tenha sido — porque acho que essa palavra carrega uma carga que não é compatível com a sua personalidade. Entretanto, me incomodou muito ver o seu ex-marido — que a agredia, explorava profissionalmente e fez de sua vida um inferno (como seus diários revelam) — tendo espaço no documentário para colocar o seu ponto de vista, tentando justificar as suas atitudes culpando Nina, algumas vezes com o apoio da filha. O longa termina costurando essa ideia de que Nina tinha “problemas” e era “complicada”, que teria sido diagnosticada como bipolar, como se esta fosse a razão para todos os seus problemas. Para mim, a bipolaridade de Nina não foi causa do que ela sofreu depois; foi consequência.

Nina Simone foi uma mulher forte. Mas a verdade é que as mulheres negras não têm outra opção: é preciso ser muito forte para sobreviver. Nina foi mais uma mulher livre aprisionada por uma sociedade incapaz de entendê-la ou, no mínimo, respeitá-la.

Em vários momentos, me senti desconfortável diante dos relatos de agressão física e psicológica que Nina sofria. Enquanto isso, recorria a diários — até na dor ela só tinha a si mesma. Para mim, o documentário poderia ser definido com uma palavra: SOLIDÃO.

A primeira solidão que identifiquei foi a que ela sofreu dentro do seu relacionamento. Por muito tempo, Nina achou que merecia essa relação (como ficou explícito em suas palavras, um sentimento ambíguo de raiva e culpa) — o que se assemelha ao que muitas mulheres negras acreditam que merecem. O fato é que as pessoas preferem nos culpar sem ao menos ter empatia por nossas vivências. São apressadas em nos julgar, mas dificilmente interessadas em nos compreender. Então não seria em uma hora e meia de filme que conseguiríamos dizer quem foi Nina Simone. Olhando de fora, de um outro contexto, pode parecer que ela tinha, sim, opção de sair daquela relação conturbada, mas a dependência emocional, a baixa auto-estima e a forma como o marido alimentava isso sistematicamente aprisionaram Nina àquela situação, apesar de toda sua força.

Fiquei mais aflita quando percebi a sua segunda solidão, na relação com a sua filha que refletia o relacionamento controlador e abusivo que Nina tinha com o marido. Ela “descontava” em Lisa o que sentia, afastando a filha.

A terceira — mas não última — solidão foi como mulher negra única. Ninguém realmente compreendeu Miss Simone. No começo do documentário, uma fala me chamou atenção: Nina diz que foi solitária em sua infância, quando não se encaixava entre as crianças brancas porque era negra, mas que também não se encaixava entre as negras, porque era a criança que estudava piano. A clássica história do negro que foge do padrão estabelecido e não é aceito nem pelos seus semelhantes, o que só gera mais isolamento e solidão.

Nina lutou muito para pertencer; por isso é compreensível a forma como se doou quando teve contato com a militância negra e seus grandes líderes — o que também foi um problema para o seu marido violento, e mais um dos motivos que ele usou para fazê-la sofrer.

O lugar de Nina na sociedade machista e racista não era o lugar que Nina, a diva negra, estava. Por isso ela sofreu, mas se estivesse no lugar pré-estabelecido também sofreria. O que mais me frustra é que nenhum desses lugares eram onde ela queria estar — talvez eu seja má interpretada no que vou dizer, mas sinceramente preferiria que Nina não tivesse sido a diva negra do jazz e, sim, que tivesse realizado o sonho de ser uma pianista clássica reconhecida, como sonhava. Ela fracassou na tentativa de ser uma grande concertista no conservatório — Nina foi uma das primeiras artistas negras a frequentar a concorrida escola de música Juilliard, em Nova York. Não pode ocupar este lugar, mesmo tendo talento para isso, porque era negra.

Por isso, depois do documentário, fui tomada por um sentimento de dor e impotência. A minha única vontade era poder abraçá-la e dizer: “Você não está sozinha”.

É fácil assistir ao documentário com distanciamento e entendê-lo como maravilhoso quando você não vive diariamente questões parecidas com as que Nina enfrentou.

É preciso que mulheres como Nina ocupem os lugares em que dizem que não podemos estar. Precisamos de muitas histórias felizes de mulheres negras, porque nós merecemos. Entendo que a realidade seja triste e não posso nem quero mascará-la. Entretanto, esse ciclo onde a gente só se vê representada pela dor não nos dá a perspectiva de vivenciar outras histórias. É preciso que esse cenário mude, que o nosso sofrimento não seja mais tão banalizado, que não sejamos reduzidas a narrativas de opressão e sofrimento.

E para que isso aconteça de maneira real, e não apenas na ficção, precisamos falar sobre racismo, precisamos falar sobre machismo. Só assim a gente conseguirá assistir a este documentário com outros olhos e poderá tentar responder com um pouco mais de empatia: What Happened, Miss Simone?

 

– Observação: vale ler também a homenagem que Clara Averbuck escreveu para Nina Simone aqui.

Stephanie Ribeiro
Leia mais textos de Stephanie aqui.