Textos

04 de maio de 2014

Audrey Hepburn

Para sempre Cinderela.

Cena: 1957, o salão de lustres do estilista parisiense Paul Duval, gravação do musical “Cinderela em Paris” (“Funny Face“). “Meus amigos” — anuncia Duval, em tom de orgulho — “Vocês viram entrar aqui uma criança abandonada, uma moleca, uma lagarta humilde. Abrimos o casulo, mas não é uma borboleta que emerge… é uma ave do paraíso. Luzes! Cortina!”. Com essa grande introdução, a incomparável Audrey Hepburn se tornava oficialmente uma das estrelas mais reluzentes de Hollywood.

A menina esquálida foi descoberta pela escritora francesa Colette em 1951, que imediatamente a escalou para a peça “Gigi”, na Broadway. Em seguida, encantou a todos com a princesa fujona em “A Princesa e o Plebeu ” (“Roman Holiday“, 1953), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, e aqueceu corações em “Sabrina” (1954), como a jovem filha de um chofer que tem a oportunidade de estudar em Paris.

De “Cinderela em Paris” (1957) adiante, Audrey insistiu que todos os seus figurinos fossem de Hubert de Givenchy. “Suas roupas são as únicas que me fazem sentir que eu sou eu mesmo” — contou a repórteres o motivo da preferência. Também pudera: Audrey é sinônimo da epítome da elegância e do bom gosto.

Assim começava a sua própria história de Cinderela. Sua vida em si daria um belo roteiro de filme: apesar de ter nascido em Bruxelas (Bélgica) numa família privilegiada — ela era filha de uma baronesa holandesa e um banqueiro britânico- irlandês — Audrey teve uma infância traumática.

Após o divórcio difícil dos pais, ela se mudou para uma Holanda ocupada pelos nazistas, onde sofreu de desnutrição como estudante de balé. A magreza que a atriz apresentou até o fim da vida, amplamente criticada como padrão de beleza irreal, foi consequência da desnutrição adquirida nessa época.

Ela dançou para ganhar dinheiro para a resistência, até que cresceu e não conseguiu continuar. A desnutrição diminuiu seu tônus muscular, até o ponto de se ver forçada a abandonar o sonho de se tornar bailarina. Mas Audrey renasceu das cinzas.

Quando a guerra acabou, ela e a mãe se mudaram para a Inglaterra, onde começou a trabalhar como modelo fotográfica e corista. Hepburn tinha uma beleza autêntica. Sorriso largo, sobrancelhas grossas e bem desenhadas e olhos grandes, daqueles que hipnotizam.

A maioria de seus filmes eram comédias românticas, mas ela sentia-se pronta para novos desafios. Para provar que podia fazer qualquer gênero, ela aceita o papel principal no filme “Uma Cruz à Beira do Abismo” (“The Nun’s Story“, 1959), que lhe rendeu sua terceira indicação ao Oscar.

Em meio a tantas premiações e relacionamentos turbulentos, seu maior sonho era o de ser mãe. Após sofrer 5 abortos, descobre-se grávida. Decide não aceitar nenhum trabalho durante a gestação, em repouso absoluto. Em janeiro de 1969, nasceu Sean Hepburn Ferrer, filho de Mel Ferrer.

Em 1961, estrela o filme do qual seria eternamente lembrada: “Bonequinha de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s“), adaptação do romance de Truman Capote. O autor, por sinal, não gostava da ideia de ter Audrey como Holly Golightly. Queria uma atriz mais sensual e ambígua, como Marilyn Monroe. Mas Audrey surpreendeu e fez história.

Após críticas ruins a respeito de seu papel em “Minha Bela Dama” (“My Fair Lady“, 1964) — chorou quando viu que não tinham respeitado sua voz nas canções, que foram dubladas), Audrey percebeu que precisava de uma pausa. Para tentar salvar seu casamento e proporcionar uma infância feliz ao seu filho, interrompeu sua carreira e se mudou para a Suíça. O relacionamento com Mel não durou: em 1968, o casal se divorciou.

“Não posso explicar a desilusão que senti. Sabia que era difícil estar casado com uma estrela mundial. Mel sofreu muito. Mas, acredite, eu pus minha carreira em segundo lugar”– disse a atriz na época.

Logo após o divórcio, Audrey conhece o psiquiatra Andrea Dotti e, em 1969, casa-se com ele. Em 1970, nasce Luca Dotti, segundo filho da atriz. Os rumores insinuavam que Dotti mantinha casos extraconjugais, e o casamento também não durou.

Dez anos após seu afastamento das telonas, ela aceita um papel para o filme “Robin e Marian” em 1976, ao lado de Sean Connery, e emenda em “A Herdeira” (“Boodyline“, 1979) , baseado em um romance de Sidney Sheldon.

Durante as filmagens de “Muito Riso e Muita Alegria” (“They All Laughed“, 1981) , Audrey conhece o ator Robert Wolders, com que viveu até o fim de sua vida na Suíça. Com Robert, Audrey finalmente havia encontrado a serenidade que tanto procurara nos casamentos anteriores.

Cinco indicações ao Oscar… e cinco abortos. Duas estatuetas… e dois casamentos fracassados. Custa acreditar que uma das mulheres mais adoradas por tantas gerações tivesse tanto azar em sua vida pessoal. Nossa heroína romântica teve uma vida cheia de carências afetivas que só foi suprida pelas causas humanitárias: no fim da década de 80, Audrey é nomeada Embaixatriz da Boa Vontade pela UNICEF. Reconhecida por seu trabalho, ganhou diversos prêmios humanitários. Ela foi pioneira entre as celebridades a apoiar a UNICEF e a ser reconhecida pela disposição para trabalhar em prol da infância, mesmo tendo uma agenda profissional tão cheia de compromissos (conheça o site oficial do Audrey Hepburn Children’s Fund).

Ao retornar de uma das viagens humanitárias, Audrey sentiu fortes dores estomacais. Foi diagnosticada com câncer de cólon. Apenas dois meses depois, Audrey faleceu em sua casa na Suíça. Sua morte completou 21 anos em janeiro deste ano.

“Tive momentos muito difíceis em minha vida. Mas fossem quais fossem, os superei e sempre encontrei uma recompensa no final”.

De gata borralheira a estrela incomparável de Hollywood, de ícone de beleza e estilo à embaixatriz da UNICEF.

Lembramos de Audrey Hepburn parada na porta da Tiffany’s, na Fifth Avenue, em NY, com um bagel na mão, coberta por luvas de ópera pretas — além dos óculos de sol Wayfarer, uma tiara brilhante enfeitando o coque banana e o tubinho preto de cetim, assinado por Givenchy.

Mas a delicadeza deslumbrante dela nas telonas tinha um revés preocupante na vida real. E essa sensibilidade tão apurada é qualidade de poucos. O seu legado para a moda, para o cinema e para a humanidade seguem como uma das maiores referências de história de vida, de luta pelas causas humanitárias e de beleza — interior e exterior.

 

* Nota da Confeitaria: leia também o artigo “Audrey Hepburn 85th Birthday“, no The Guardian, e veja aqui o lindo Doodle que o Google fez hoje em homenagem a ela.

Tatiana Giglio
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