Textos

12 de agosto de 2014

Nos vemos na Terra do Nunca

Uma vez li numa entrevista que durante as gravações de A Lista de Schindler, Steven Spielberg ligou para Robin Williams para encontrar uma faísca de alegria em meio a um set de filmagem tão pesado.

É que seu riso o sustentava.
Rir era o seu melhor remédio, definitivamente.

Difícil entender como pode ser tão triste o final para alguém que nos trouxe tantas alegrias. Especialmente para quem cresceu assistindo aos seus filmes e, de alguma maneira, aprendeu muito com eles.

Ele foi um russo perdido em NYC, como todos nós já nos perdemos. Ele foi um locutor de rádio que tentava distrair os soldados dos horrores da guerra, foi o professor que nos ensinou sobre a vida, foi um doutor que acreditou que o amor é contagioso, uma babá que se transvestia para ficar perto de seus filhos. Um psicólogo da alma, um menino que não quis crescer e um gênio da lâmpada com poderes cósmicos fenomenais.

Tudo o que se pode sonhar em ser.
Ele foi tantos e foi único.

O ator nos deixa com uma impressionante diversidade — da comédia mais delirante ao puro drama — a carreira cheia de altos e baixos segue marcada por uma espantosa versatilidade e talento.

Mas algo você nunca fez diferente, Robin.
Você nunca deixou de nos passar uma mensagem otimista.

Chegou em nossas vidas como mais um comediante, mas acabou por tocar fundo nossas almas. Nos fez rir, nos fez chorar, nos presenteou com um talento imensurável em emocionar.

Agora irremediável, parece assumir posição eterna como se um segundo sem o seu talento fosse um desperdício para a humanidade.

Mas a realidade é essa, e dela não dá para fugir ou enganar. Você escolheu ir embora.

Durante anos, estava aprisionado no câncer da alma: a depressão.
Pensávamos que você estava bem de novo. Tínhamos esperança que você nos faria rir mais uma vez.

Mas o tempo não cura tudo.
Aliás, o tempo não cura nada, apenas tira tudo de incurável do centro das atenções…

Agora você está livre, Gênio.

A verdade é que não sabemos muito sobre muitas coisas.
Penso no tanto de angústia que a gente desconhece no outro, no tanto que a gente não vê. No tanto que vimos de você, no tanto que não vimos.

Mas é preciso força de caráter para se viver a vida que se sonha.
E você conseguiu por muito tempo, Robin.

Você nos ensinou que o amor verdadeiro é aquele que desperta a alma, e nos faz sempre querer ser mais. É aquele que acalenta nossos corações e arranca nossos sorrisos sem dificuldade. Esse sim é o amor além da vida.

As lágrimas não bastam e não cessam, porque hoje é o seu sorriso não está mais entre nós.
Mas a sua alegria contagiante permanece. Manteremos essas memórias vivas por você.

Perceber as lágrimas secas no canto dos seus olhos lembra o orgulho dos utópicos em exibir sua própria fragilidade de forma que eleva a tristeza à saudade e a admiração à recordação.

Infelizmente, nunca poderemos agradecer por todos os risos, lágrimas e lições que aprendemos com seus personagens, mas fica aqui a nossa singela homenagem.

Obrigada por nos doar as suas risadas, vamos sorrir de volta para você.

– Wendy: So… your adventures are over.
– Peter Pan: Oh, no. To live… to live would be an awfully big adventure.

A segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer.
Uma boa viagem, Robin Williams.

 

* Imagem: still da animação Aladdin, na qual Robin Williams deu voz à Genie.

Tatiana Giglio
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