Textos

10 de março de 2014

Até que a felicidade os separe

Todos os dias, ele chegava em casa cansado. Ela sabia que era do trabalho, mas não sabia nada além disso.

Ela chegava todos os dias tarde da noite, pensando na janta que tinha que fazer, na roupa pra passar, na casa pra limpar, na louça pra lavar, na vida pra levar. Cansada do trabalho e não sabia mais do que.

– Estou cansada, disse ela.

– Eu também, disse ele.

Meses se passavam e a rotina era a mesma.

– Gostaria de me casar, disse ela. Nada de festa, vestido de noiva ou buffets caros. Quero apenas saber que não é tão fácil desmontar um sonho. Apenas quero me sentir mais segura.

– Nós já somos casados, ele disse. O que importa é o que sentimos e como nos sentimos e, pra mim, somos casados.

– Eu também sinto, mas queria casar com você. Assim, botar um vestidinho, estar com os amigos em um almoço feliz, celebrando nossa alegria, disse ela.

– Acho besteira. Estamos bem assim.

Silêncio. Apenas o som da TV, que permeava suas vidas diariamente.

– Seria importante pra mim. Eu não estou bem assim.

Silêncio.

– Bom, vou arrumar alguma coisa pra comermos.

– Ok.

TV, barulho das panelas, silêncio.

Olhos ardendo por causa da cebola disfarçam as lágrimas.

– Como foi seu dia? — ela pergunta com a intenção de iniciar um diálogo, mesmo que trivial.

– Normal. Nada demais.

Na sala, futebol, notícias, um monte de nada.

Na cozinha, o barulho e o cheiro bom do alho e da cebola refogando no azeite.

Silêncio.

Ela anda da cozinha para a sala de sua pequena casa, o relicário da tecnologia solitária. Ouve o barulho de seus próprios passos, seus pés pesados depois de  um dia inteiro em pé, vestidos em sua Havaianas pretas de florzinhas brancas e tiras amarelas, suas preferidas.

– A janta tá pronta.

– Aham.

Em pé, seu olhar repousa demoradamente sobre ele. Com um misto de medo e tristeza, ela suspira e num desabafo diz:

– Estou cansada.

Ele move a cabeça sutilmente, mas não se dá ao trabalho de olhar pra ela. Permanece em silêncio.

– Estou cansada de você. — ela insiste.

– Eu também estou cansado de você. — diz ele com uma calma psicótica.

– Imagino. — diz ela com os ombros pesados, tomada por um sentimento terrível de derrota.

– Vamos comer?

– Vamos. Preciso pagar a prestação da geladeira, então vou dobrar o turno no restaurante de novo.

Sentam-se no sofá , procuram qualquer coisa na TV para passarem distraídos o pouco tempo que tem juntos.

– Vou pra cama. Estou exausta.

– Ok. Vou fumar mais um cigarro e já vou.

Quando ele chega na cama, ela já está dormindo. Não há mais beijo e abraço de boa noite, apenas uma divisão de território com o colchão e as cobertas.

Quando ela levanta, ele ainda está dormindo. Ela faz o café, arruma o que não conseguiu na noite anterior. Ele levanta, acende um cigarro e liga a TV. Mais uma vez, ela tenta puxar assunto antes de sair correndo pra pegar a única lotação do Grajaú que a levará ao trem da linha C. De lá, mais duas conduções para chegar do outro lado da cidade.

Silêncio.

Ela toma banho, se arruma, se perfuma, se olha no espelho e só deseja nunca mais voltar.

– Tô saindo, me atrasei. Tchau.

– Tchau.

Um beijinho rápido e sem amor os separa.

O único contato do dia. E tudo começa outra vez.

 

* Imagem: Aleksandra Waliszewska.

Thais Lima
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