Textos

09 de outubro de 2012

Bagdad Café

Então chegou o dia em que ela se conformou.

Ela não sabia bem como, não sabia bem quando, nem mesmo o porquê.

Mas se conformou.

Em uma noite qualquer, aqueles anos passaram por sua cabeça. Ela se lembrou de tudo. Fechou os olhos e sentiu a esperança, que carregou em seu peito durante todo esse tempo, escorrer como grãos de areia por entre dedos.

Balbuciou meia dúzia de palavras sozinha em uma mesa de bar. Tomou um gole de cerveja. Veio um gosto amargo, que conhecia muito bem. Era o mesmo gosto amargo que há tantos anos habitava sua boca.

Emudeceu de pavor. Seus pequenos olhos cor de mel abriram-se como se estivesse no escuro, à procura daquela dor. A dor da espera por algo que jamais chegaria. Essa dor que era a única coisa familiar que ela conhecia.

Olhou dentro de si e nada. Não estava lá.

Estava aterrorizada e confusa: poderia pensar em si como alguém merecedor de algo que não fosse a esperança surrada de tantos anos?

Olhou pro seu all star tão sujo e surrado quanto a tal. Percebeu que havia cuidado de sua vida como cuidava de seu tênis. Sua boca, já machucada com o peso dos anos, se entreabriu e sussurrou algum adjetivo sobre si mesma que jamais se saberá.

Pensou em pensar nisso no dia seguinte, como tantas vezes a aconselharam. Mas o pensamento insistia.

Decidiu ir pra casa.

Dormiu. Sonhou. Não se lembrou de nada quando acordou.

O momento que mais temia realmente chegara: ela se conformou. Justo ela, que jamais se conformara com coisa alguma. Justo ela, que jamais desistira.

Já não havia mais o que fazer.

Percebeu que, se não morrera naquele exato momento, não lhe restava nada, a não ser recomeçar.

 

* Ilustração de Rafael Battella.

Thais Lima
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