Escrever: uma ode à solidão
Textos

26 de junho de 2012

Escrever: uma ode à solidão


De Quino – criador da incrível Mafalda, cartoon traduzido em 26 idiomas – a Philip Roth – considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX -, não há muitas divergências: escrever nem sempre é prazeroso e fácil quanto parece.

Ao contrário. A sensação de olhar uma página em branco, por horas, é torturante. Não ter uma boa pauta também. Escrever é bem diferente de vomitar sensações em palavras.

Por estes motivos, trouxe este tema em meu primeiro texto aqui. Essa é a minha visão sobre redigir, coisa que eu adoro fazer, porém passei semanas – sem exageros – pensando sobre o que escrever. Quando alguma coisa é muito complicada, escrever sobre ela geralmente ajuda muito. Pois bem.

Em uma entrevista disponível no Parque da Água Branca, que, infelizmente, ainda não encontrei online, Quino, escritor genial, fala um pouco sobre como era conviver com Mafalda. Nada fácil.

Entre 9 da manhã e 5 da tarde, ele pensava na tirinha daquele dia. Uma única tirinha. E tinha entre 5 da tarde e 9 da noite para criá-la. Todo o santos dia, imaginem! Ele diz não ter saudade. Você teria? Como não se tornar uma tarefa excruciante após longos 10 anos?

Segundo ele, “um personagem escraviza muito e eu tinha medo de me repetir (…) É um trabalho mais rotineiro e, portanto, a gente se sente mais limitado. As tiras obrigam a gente a desenhar sempre os mesmos personagens e nas mesmas medidas. É como se uma marceneiro tivesse que fazer sempre a mesma mesa e eu também queria fazer portas, cadeiras, banquinhos…”

Quino, sendo um gênio, você pode fazer o que quiser, ok? Nós agradecemos.

O que mais queremos, todos os dias, é ir além das mesas e fazer portas, cadeiras e banquinhos! E para isso, usamos nossa profissão como hobby. Na verdade, usamos como profissão, o nosso maior hobby. E ainda assim, muitas vezes é bem difícil.

Nem todos os dias existe inspiração sobrando para quem escreve. E isso vale para qualquer profissão que exija intelecto e criação. Ser escritor, redator, jornalista ou coisa parecida significa virar um saquinho de palavras.

As pessoas olham para você e dizem: “Preciso de uma frase que fale sobre cactos e gatos fofos, fazendo um link com aquela coisa horrorosa que aconteceu em Pinheirinho, sabe? Porque temos que aproveitar que está na mídia e pegar carona no bafafá, né? Misturar esse assunto com gatos, que todos amam, mais o cacto, que é o negócio do cliente, é sucesso na certa. Senta aqui do meu lado e escreve, por favor? Preciso fechar isso em 5 minutos”.

Opa. Para escrever é preciso ler, é preciso concentração e até pesquisa. É um processo criativo. O máximo que se consegue em 5 minutos é algo do tipo: “Em Pinheirinho, não há apenas genocídio de crianças e adultos. A Cactos S/A também está por lá, plantando mini cactos para todos os gostos. E não se esqueça: deixe seu gatinho perto de nossos cactos, eles adoram ficar com o focinho cheio de espinhos!”.

Porém, quando se trata de uma profissão, não há muito o que fazer. Afinal, o capitalismo também tenta sugar nossa subjetividade, além da nossa força de trabalho. Pra ele, essa é a cereja do bolo. Ao menos, hoje, meu trabalho voltou a ser este e isso é o que me faz feliz, seja como for. Não reclamo, mas quem me conhece sabe: eu não conseguiria deixar a ironia de lado.

Desabafos profissionais à parte, escrever às vezes – ou muitas vezes, ou quase sempre – demanda sacrifícios.

É preciso fechar-se em uma bolha. É estar não apenas sozinho, mas solitário. Você e sua folha em branco. Você e seu desespero por sua folha estar em branco. Muitas vezes você e o pânico do último minuto, como diria Calvin. Estímulos externos não são bem vindos, obrigada.

Philip Roth disse em entrevista ao Estadão sobre seu romance ‘Nemesis’ – que significa “o inimigo que não pode ser vencido”, que preferia escrever um livro só, continuamente, até morrer. Porque “essa história de começar e completar e começar de novo é puro inferno”.

Bem, quem não concordar, que escreva agora ou cale-se para sempre.

Thais Lima
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