Textos

10 de dezembro de 2013

Muda, que o mundo muda com você.

Final de ano, São Paulo está caótica, todos preocupados em comprar seus presentes de natal. Enquanto isso, o mundo real dá sinais diferentes dos que estamos habituados a receber.

Pela primeira vez, começo a perceber que talvez as coisas estejam engatinhando para pequenas mudanças.

Uma vitória recente foi a de que os movimentos feministas terem conseguido na justiça que o app Tubby – não interessa se era falso ou não, a discussão não pode se resumir às groselhas infantis da Internet, o que interessa aqui é que estamos sendo ouvidas – não fosse legalizado, com base na Lei Maria da Penha. Lei que batalhamos para conquistar, pois antes dela, ao serem espancadas e denunciarem, as mulheres recebiam a informação de que o agressor até poderia ser indiciado, mas que ele teria somente que “pagar” uma cesta básica pelo crime de violência que havia cometido. A pessoa lá, humilhada e ferida, e o delegado falava: “a senhora quer mesmo prestar queixa de seu companheiro? O que a senhora vai receber por isso é uma cesta básica” – em tom irônico. A tortura não tinha fim.

Por um lado, é motivo de orgulho termos nos organizado tão ferozmente. Por outro, é muito triste termos que nos organizar ferozmente para não não sermos violentadas, agredidas e ofendidas sistematicamente.

Na semana passada, também tivemos casos importantes divulgados, não propriamente na grande mídia, porque a grande mídia é vendida. Mas, nas mídias alternativas, vimos um caso de uma professora negra que sofreu preconceito racial e de gênero pelo ex-dono de um restaurante conhecido em São Paulo, o Dueto Bar, que disse a ela: “seus pelos pubianos devem ser duros como os de sua cabeça” . O cara acha que pode falar o que quiser que vamos abaixar nossas cabeças e sair humilhadas para o cantinho? Não. Agora, vocês serão processados por fazer isso com a gente. (Você pode ler aqui).

Também vimos o caso – que até a grande mídia publicou – da garota que apanhou de um homem em uma discussão de trânsito. Uma garota que eu conheci quando tinha apenas 20 anos e que respeito pela coragem que sempre teve de bancar as suas escolhas. O cara pensa que pode dar um soco na cara de uma mulher que tem a metade do seu tamanho e um terço de sua força física. Não. Agora, vocês também serão processados por fazer isso com a gente. (Você pode ler aqui).

E mais um caso, desta vez não sobre as mulheres, mas sobre racismo, que aconteceu no Ceará. Meninos de chinelo foram proibidos de entrar na inauguração de um shopping. O motivo? Estavam de chinelos e eram negros. Colocaram os garotos sentadinhos, com as mãos nas cabeças como se fossem criminosos. “Se são pretos e pobres, são ladrões”. É assim que nossa sociedade tão branca pensa. Ainda que a maioria de nós, brasileiros, sejamos descendentes de negros e índios.

Ninguém deve ser julgado pela cor de sua pele ou pela chinela que está no pé. Se existe crime e violência desse tipo, é porque essas pessoas foram violadas do seu direito de ser humano desde que nasceram. Não se exclua dessa responsabilidade porque ela também é sua.

Mas a coisa interessante dessa história é que eles filmaram tudo e mandaram publicar, mostrando que sim, nosso Brasil está engatinhando para sair da miséria. Agora, meninos pobres e negros também podem filmar com seu celular e registrar mais um caso de racismo no país onde vivem à margem da sociedade há milhares de anos. (Você pode ler aqui).

Judicializar todas essas questões, infelizmente, ainda é necessário. E o único pedido é a igualdade de direitos e oportunidades. Simples, não é?

Estamos no meio dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, que no Brasil vai de 20/11 – Dia da Consciência Negra – até dia 10/12 – Dia dos Direitos Humanos. Mas pouca gente sabe e pouca gente fala sobre isso.

O que me deixa contente é que, nas últimas duas semanas, tivemos esses quatro sinais de que, talvez, exista esperança. E, talvez, também exista a esperança de que o patriarcado comece a perceber que não vamos mais apanhar, sofrer humilhações públicas ou privadas, seja de gênero ou etnia, e ficar quietas.

Não, companheiro. Não vamos mais receber apenas uma cesta básica depois de sofrer violência. Vamos gritar e denunciar, com todo o nosso fôlego, com o punho fechado e para o alto, nem que a gente continue morrendo por isso.

 

* Ilustração: Paloma Dantas.

Thais Lima
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