Textos

01 de fevereiro de 2016

O fim do mundo

Pra quem tem sede de vida, o tempo nunca está a favor.

Cada tiquetaquear do relógio é ouro.

Cada minuto é um a menos.

Há que se parar o tempo!

 

O tempo que passa pela janela do meu apartamento.

O tempo que se perde com a vida pra levar.

Hoje passa pela pequenina janela velha e suja de um ferry boat.

Que atravessa as profundas águas geladas e insólitas.

Nas quais o Atlântico se encontra com o Pacífico.

E eu encontro os meus cinco sentidos.

 

O hostil do extremo, minha eterna pulsão anarquista.

Sem luxo nem lixo, com frio e faminta.

Cada centímetro, uma sensação.

Cada olhar, uma nova paixão.

Necessária é essa solidão.

 

Aqui, cada segundo é de verdade.

A hipocrisia não tem identidade.

A vaidade não cabe.

 

É a terra do fogo.

Das paisagens mais lindas.

De todos os azuis e laranjas e vermelhos e rosas.

É o fim de tudo.

É o fim do mundo.

 

É o fim de tudo.

É o fim do mundo.

É a terra do fogo.

Das paisagens mais lindas.

De todos os azuis do mundo. E laranjas vermelhos e rosas.

Onde o sol e a lua se encontram timidamente, todos os dias.

 

Atravessando o Estretito de Magalhães, Ozzy Ousbourne na TV do ferry boat apresenta uma de suas melhores performances, enquanto eu apresento a mim mesma minha melhor escolha: a de explorar o fim do mundo.

 

O extremo do extremo correndo contra o tempo sem luxo nem lixo, com frio e com fome de tudo.

A vaidade não cabe e dormir é perder tempo.

Cada segundo é ouro.

Cada minuto é um a menos.

Cada centímetro é cultura.

 

 

Cada visão, um aprendizado.

A palavra, só necessidade.

A hipocrisia não cabe.

Cada segundo é de verdade.

O respeito, mútuo.

Sobreviver.

 

É o fim de tudo.

É o fim do mundo.

É a terra esquecida.

É a terra do fogo, do frio e das paisagens mais lindas.

De todos os azuis, de todos os laranjas e vermelhos e rosas.

Onde o sol e a lua se encontram e se contemplam todos os dias.

É o fim do mundo.

 

 

* Ilustração de Laís Soares para Confeitaria

** Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Thais Lima
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