Literatura, Textos

07 de agosto de 2015

Os 15 melhores pais da literatura

Lembro-me de ter comentado sobre a figura paterna nos filmes do Wes Anderson, em artigo que escrevi para esta Confeitaria, há exato um ano, sobre Grande Hotel Budapeste. Dizia eu que o pai, tanto em Anderson quanto em Stefan Zweig, aparece como fantasma na concretude: está ali, carne e osso, mas mergulhado em uma busca alucinada pelas memórias dessa presença. O que tenho eu com meu pai, afinal de contas? E essas lembranças meio desconectadas ou se projetam em algum vitral com formas definidas ou expõem sua luz, seu sol, em cacos mal formados e de distintas cores.

Neste domingo celebramos o Dia dos Pais e a Confeitaria me convida a relembrar alguns dos pais mais célebres da literatura. Fiz a lista abaixo tentando fugir de algumas pequenas obviedades e inspirada, claro, no meu gosto particular, nos livros que mais me marcaram. Se há pais mais relevantes no Antigo Testamento ou em Shakespeare, não tenho dúvida disso. Apenas permito-me pender para o lado que mais me comove, seja por questões de identificação ou por sensibilidade afim.

Pais são figuras literárias que rendem retratos mais planos na cultura ocidental. Não são superficiais ou rasos, mas seus percursos, via de regra, têm poucas reviravoltas, quando em relação ao seu papel paterno. Suas vidas se transformam, mas muito raramente por conta da paternidade, o que revela — divago — determinado traço cultural de nossa sociedade ao longo dos séculos. Personagens fundadores do Antigo Testamento, por exemplo, vêm de mães a princípio estéreis, acima da idade. Há um drama na maternidade desde que começamos a deixar registradas nossas histórias e nossas tradições.

Penso eu que filho e mãe são os grandes pivôs de nossa cultura. O filho busca o pai, em geral. Todo filho é Édipo. Toda mãe é Medeia em fuga para Atenas. E, como no romance moderno, todos os pais são iguais, como todas as famílias felizes. Daí o desafio dessa lista.

Minha lista não tem uma ordem de preferência, cronológica ou de importância.

Feliz Dia dos Pais a todos!

 

01. O pai de Georg Bendemann, em O Veredicto, de Franz Kafka

Citar o pai real de Kafka não é literatura, é biografismo. Mesmo seu Carta ao Pai, recebido semificcionalmente pela crítica do autor tcheco, não nos dá por completo todo o retrato do mesmo. É em O Veredicto, conto que alteraria para sempre todo a escrita e estilo de Kafka, escrito em uma sentada, que temos um pai que pula na cama em fúria contra o filho. E que o condena, simples assim, à morte por afogamento. Quem nunca foi condenado por um pai à morte por afogamento, não é mesmo?

 

02. Vladek Spiegelman, em Maus, de Art Spiegelman

Art Spiegelman concebeu sua obra prima a partir de sua fixação pela história do pai, que sobreviveu ao Holocausto. Nada pode resumir ou descrever melhor Vladek do que esta cena, em que a memória deixa de ser uma data, um ano e vira um grande ontem apenas.

 

03. Mr. Bennet, em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

Deixo a palavra com Austen, quando Mr. Bennet, diante da dúvida de Liz se ela deve ou não se casar com Mr. Collins, apenas diz à filha: “Será uma estranha em sua própria casa, diante de seus próprios pais: sua mãe nunca mais a verá de novo caso não se case com Mr. Collins, e eu nunca mais a verei de novo caso se case.”

 

04. Jack Torrance, em O Iluminado, de Stephen King

Ficará conhecido para sempre como Jack Nicholson, depois da adaptação para o cinema do Kubrick. E eis um pai que condensa todas as características mais temidas de qualquer pai.

 

05. Alex Portnoy, em O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

Ele guardava um copo com uma ameixa perto da janelinha do banheiro. Alex Portnoy, uma vez, vendo imagens da destruição em Hiroshima e Nagasaki, comentou: “era disso do que meu intestino precisava”. Eternamente constipado, o pai de Alex Portnoy é um retrato daquela geração de judeus da classe média americana, entre Nova Jersey e Nova York, e figura da qual o filho tinha como uma imagem ao mesmo tempo ridícula e prestes a explodir todas as suas neuroses no banheiro.

 

06. Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos

Romance seminal do autor alagoano, São Bernardo gira em torno de um dos pais mais importantes da literatura brasileira. Paulo Honório me parece o primeiro homem do Brasil pós-colônia, cujo modelo se mantém atual, com suas tensões no controle da fazenda, dos empregados, da família. De dentro, das raízes do país, durante o governo de Getúlio Vargas, o livro trata de um assunto muito familiar: o afeto quebrado pelo dinheiro, pela posse e pelo poder. Conheço uns vinte pais assim em 2015.

 

07. Ted Kramer, em Kramer VS Kramer, de Avery Corman

O filme se tornou mais célebre do que o livro que o inspirou. Kramer é o modelo de pai que assume o filho, que coloca o emprego em risco para dele tratar, que não faz ideia para onde foi a ex-esposa. Que tem de aprender a fritar ovos e a fazer omeletes. E nos traz à pergunta: os pais podem ser tão bons quanto as mães em um universo de supervalorização da maternidade?

 

08. Leopold Bloom, em Ulysses, de James Joyce

Bloom não é o pai de Stephen Dedalus. Mas naquele 16 de junho, ele vagueia pela capital irlandesa Dublin à procura dessa filiação que possa lhe render a eternidade que todos desejamos. O que é eterno reside no que deixamos e, diante da reflexão que ele nada possui, Bloom busca, entre outsider e típico habitante da metrópole (o mal judaico, diria Joyce), o pertencimento naquele que o substituirá. Bloom funciona como Ulisses e Dedalus como um Telêmaco, o que nos leva ao livro seguinte.

 

09. Odisseu, em Odisseia, de Homero

A epopeia dissecou (a nós, a modernidade) o coração humano em seus mais variados batimentos, como estrutura, como exemplo e como danação, dirá o crítico Erich Auerbach. E obviamente vem da Odisseia que Joyce tirou a inspiração para seu Ulysses, do item anterior. Quando Telêmaco, filho de Penélope e Odisseu, despediu-se do pai, ainda era criança e não tinha consciência da despedida. E o retorno do pai a Ítaca, depois de anos, com o filho já velho, será sua danação. O filho que busca o pai é o pai que busca o retorno, sempre.

 

10. O pai do narrador, em Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Infelizmente muito se diz sobre a mãe em Proust, personagem esta que tem relevância apenas no primeiro volume da Recherche — e passa a ser substituída pela obsessão por Albertine, entre outras personagens. Já o pai do narrador é uma figura fria, cujas reservas e proibições acabam por marcar o jovem até o fim de sua vida. A frieza glacial, pondera o narrador quase ao fim de sua jornada, viera-lhe do pai, protegendo e escondendo uma sensibilidade que deu motor a todas as suas lembranças. O pai, aliás, amava estudar meteorologia.

Talvez, em meu pai, a frieza fosse somente um aspecto exterior de sua sensibilidade? Pois esta talvez seja a verdade humana desse aspecto duplo: aspecto do lado interior da vida, aspecto do trato social, que exprimíamos nessas palavras, que me pareciam outrora tão falsas em seu conteúdo quanto plenas de banalidades em sua forma, ao falarmos de meu pai: Sob sua frieza glacial, ele esconde uma sensibilidade extraordinária: o que ele guarda, sobretudo, é o pudor de sua sensibilidade”.” (tradução minha)

 

11. Thomas Schell, em Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer

Um pai morto no atentado às Torres Gêmeas, em NY, em 2001. É pelo filho, de 9 anos, que descobrimos o pai. É pela reconstrução de imagens perdidas, algumas inexistentes e irreais, que a figura paterna, já ausente pela morte, se solidifica e traz algum sentido à tragédia pessoal de uma criança. Todos que leram o livro certamente quiseram ter Thomas como pai, alguém para explorar um Central Park imaginário.

 

12. Jean-Joachim Goriot, em O Pai Goriot, de Honoré de Balzac

Nesta obra que dará as bases para o projeto da Comédia Humana, de Balzac, temos um pai-retrato de uma sociedade, como é próprio de muitos dos livros do autor francês. Fez sua fortuna durante a Revolução e mandava e desmandava em seu território. Traído pelas duas filhas, morreu de maneira melancólica, tendo reduzido qualquer sinal de ligação paterna a nada. O Pai Goriot era o pai de todos, de Vautrin, de Ratisgnac, das filhas, de uma sociedade que descobria, com a burguesia, a estratégia do arrivismo e o distanciamento afetivo das famílias, diante de qualquer moeda de troca. Creio que este é o pai de figura mais triste dessa lista.

 

13. Willy Loman, em A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller

A degeneração do pai de Willy se dá no restaurante quando um de seus filhos, Biff, o chama de fraude. Sua carreira em declínio, as tentativas de suicídio, o constante descolamento de personalidade, fazem de Willy um grande símbolo, tal qual sua família, da enorme distância entre o que está por trás das cortinas do cotidiano e do que está diante.

 

14. Moses Herzog, em Herzog, de Saul Bellow

Saul Bellow é um Philip Roth mais complexo, mais denso, mais doentio e mais perturbador. Em Herzog, seu protagonista tem dois filhos, um de cada casamento. Mais uma vez a figura do pai ausente, dos filhos que crescem à distância, com as mães, neste caso, e que intensificam ainda mais todos os não ditos na relação pai-filho.

 

15. Geppetto, As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi

Entre Victor Frankenstein e Geppetto, dei preferência para o segundo, por ser uma história infantojuvenil. A figura do carpinteiro que molda o seu boneco, quase como uma parábola de qualquer gênese mitológica, reproduz o anseio humano de, na falta de um deus ou de um sentido, tornar-se Deus ele mesmo: criando outro ser à sua imagem e semelhança, pelo poder da paternidade.

 

* Imagem: ilustração de Le Avventure di Pinocchio, Storia di un Burattino, Carlo Collodi, Bemporad & figlio (desenhos e gravuras por Carlo Chiostri e A. Bongini)

Thiago Blumenthal
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