Crimes e Pecados

Sem felicidade: uma leitura de “Crimes e Pecados” de Woody Allen.

Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. De todos eles, apenas três envolvem miséria ou sofrimento. Ainda assim, é em torno desses três que boa parte da humanidade mantém-se em constante trânsito.

Considero “Crimes e Pecados” (“Crimes and Misdemeanors“, 1989) o filme mais triste de toda a filmografia de Woody Allen. Esqueça o terrível “Setembro” (1987) ou as tensões familiares de “Interiores” (1978), do período em que o diretor brincou de ser Ingmar Bergman; não há páreo para a miséria humana de “Crimes e Pecados”, em todos os níveis de gradação, e que atinge, em especial, os personagens de Judah Rosenthal (Martin Landau) e Cliff Stern (vivido pelo próprio Allen). A imagem estampada em muitos dos pôsteres da época e a que hoje está no DVD contrapõe, inclusive, essas duas figuras quando se encontram e travam diálogo ao fim da história.

O que ocorre, no entanto, é que esses dois personagens percorrem direções distintas do começo ao fim do filme: enquanto Judah começa o filme em estado de angústia depois da ameaça mais concreta de sua amante, Dolores Paley (Anjelica Huston) de destruir sua família, Cliff está radiante com sua vida — a primeira cena em que o vemos é no cinema, onde se sente bem, vendo um filme ao lado da sobrinha e sorrindo. Ao fim e após a jornada individual de cada um entre paixões, crimes, frustrações, o cenário se inverte e é Judah que se encontra realizado com seus feitos, com as decisões recentes que tomou, com o rumo de sua vida. Já Cliff está arrasado; perdera um grande amor (Halley Reed, vivida por Mia Farrow) e uma de suas inspirações profissionais simplesmente havia se jogado pela janela, em um banho de realidade que jamais poderia esperar tanto de Halley quanto do professor Louis Levy, o filósofo com uma visão positiva da vida que seria tema de um documentário que estava dirigindo.

Judah e Cliff estabelecem o contraponto narrativo de “Crimes e Pecados” a partir de um pivô fundamental e que pontua a história em momentos de reflexão, na figura do professor Levy. Essa engrenagem dá a volta e é quando o filósofo morre que os protagonistas se tocam e passam a permutar esse estado de infelicidade, ressaltado pelos budistas ao qual os seres humanos estão presos.

Em resumo, Judah é um oftalmologista que tem traído a esposa, com quem é casado há 25 anos. Após sofrer ameaças da amante, desespera-se, procura a ajuda de um rabino (de quem está cuidando da visão, aliás — e fracassa, pois este perde totalmente a visão ao fim do filme) em busca de uma solução. A proposta é que conte toda a verdade à esposa, que, na confissão sincera da infidelidade, pode haver uma paixão intensa digna de perdão. Judah, um homem pouco religioso, não segue os conselhos do rabino e procura o irmão, com quem tem pouco contato, um sujeito com uma visão bastante distinta de seu universo mais intelectualizado: é preciso jogar a amante para debaixo do tapete ou tudo pode estar perdido, não há outra saída. Temeroso, dá cabo do plano: contratam ambos os irmãos um matador de aluguel que de fato despacha a moça sem maiores dificuldades em um crime sem culpados. Ao fim, Judah não é pego, nada acontece, a culpa vai embora e ele volta a encontrar a felicidade em sua esposa, família, em seu cotidiano — como deixa claro em seu discurso final, quando encontra Cliff na festa que encerra o filme.

Já Cliff, apesar de parecer quase um alívio cômico da história (e não é, esta é o ponto em que Allen mostra sua habilidade narrativa), tem uma história que envolve menos sangue, mas um sofrimento também bastante intenso. Com o casamento em crise, encontra a alegria nas sessões vespertinas de cinema com a sobrinha e no documentário que está editando. Mais do que isso: descobre-se apaixonado por Halley, a personagem de Farrow, que consegue o financiamento da produção para a TV do documentário. Assistem a Gene Kelly juntos, pedem comida indiana, compartilham momentos de extrema felicidade, com a expectativa de um novo relacionamento.

Engana-se quem pensa que teríamos o mesmo final feliz de “Hannah e suas irmãs”, de três anos antes. Tudo dá errado em sua vida: seu casamento termina em ruínas (com a ex dizendo que já está saindo com outro); Halley parte em um temporada na Europa e retorna casada com um de seus principais desafetos (de quem costumavam rir juntos durante todo o filme) e lhe devolve a carta de amor que ele havia enviado alguns meses antes; e o professor Levy, um exemplo de afirmação da vida, se suicida. Um velhinho que literalmente se joga pela janela e, mesmo com todo o seu conhecimento, escolhe deixar o recado de despedida mais banal possível.

São estados de consciência melancólicos e quase cruéis que se cambiam de acordo com os acontecimentos na vida de cada um desses personagens: a imagem forte e intensa dos olhos de Deus que tudo vê, mesmo quando morto, e o aspecto transitório da vida. O que fazer diante do olhar intenso e penetrante de Deus, pergunta-se Judah, ao encarar a figura da amante morta no chão ainda de olhos abertos; o pensamento de que a alma se perdera dali e fora transferida a uma esfera além e misteriosa o congela. E como lidar com a falta de um estado mais perene de nossas vidas, pergunta-se Cliff, quando sua vida parece tirar, e de uma só vez, tudo o que ele tem ou o que ele julgava ter. Tudo acontece de maneira tão inesperada e tão injusta que a felicidade humana não parece ter sido incluída no propósito da Criação, diz o professor Levy em um dos trechos de suas muitas entrevistas tão cuidadosamente coletadas pelo personagem de Allen.

“Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas têm grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuímos um sentido a um universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando, e até de encontrar prazer nas coisas simples como sua família, seu trabalho, e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior.” (Professor Levy)

Mais do que soma de nossas decisões individuais e mais do que um mosaico de inter-relações pessoais (namoros, casamentos, amantes, nesta ordem) somos vítimas constantes de um acaso que não é sutil tampouco justo conosco e com os planejamentos e passos que damos em direção aos nossos desejos. Talvez seja isto, uma espécie de carma neste engenho de desejo atrás de desejo, que nos deixe tão atados aos estados de consciência mais tristes, enquanto há centenas de possibilidades de reanimar constantemente o espírito. E não conseguimos, Cliff não consegue, eu não consigo. Há quem consiga.

O caráter aflitivo de “Crimes e Pecados” está no peso real, na ameaça de destruição de família e carreira, e depois em lidar com um Deus judaico terrível e implacável diante do assassinato da amante (no caso de Judah). Já para Cliff, é na perda de tudo o que fazia sentido, ou seja, as paixões que o levavam adiante. Enquanto Judah termina o filme bem, não se trata de um happy ending — como Allen fez questão de diferenciar de “Hannah e suas irmãs”. Judah é apenas a comprovação do mal na Terra, do conformismo em um casamento tolo que lhe assegura seu status social. Mais do que isso, é o aspecto mais pragmático que vence uma barreira que parecia intransponível. Oras, contratemos um matador de aluguel e problema resolvido. E tudo se resolve de fato, como veríamos anos mais tarde em “Match Point” (2005).

Já para o personagem de Allen, a situação é ainda mais desoladora porque Cliff não personifica o mal, mas sim a vítima de um universo em constante desarranjo em uma lógica de destruição e recomeço. Mas como recomeçar? O fracasso de Cliff é tão triste na festa final do filme que chega a comover. A postura de um derrotado diante do absurdo da vida. Se ele ria antes com a amada do desafeto que usava mocassim sem meia, ela termina ao filme casada com o sujeito. Se ele encontrava algum sentido nas palavras de otimismo do professor Levy, este se joga pela janela. Perdera tudo e ainda está humilhado diante de todos os personagens do filme, usando um solidéu na cabeça todo torto, quase caindo, com a postura de quem acaba de levar um gancho da vida — e se curva não para retomar o fôlego, mas como reflexo da falta de ar e de sentido dos acontecimentos mais recentes.

* * *

Assista ao trailer aqui.

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.