Textos

02 de setembro de 2015

Ilustração:
Thiago Thomé

A cabeça de Baal

Abraão viveu ali por um período indeterminado de tempo, me explicava o guia enquanto eu cismava que aquele meu chapéu ainda não era o mais adequado para explorar o deserto. Abraão teria chapéu naqueles tempos? Talvez fosse o sol mais complacente quando o espírito de diversos deuses ainda povoavam a fé de todos esses homens. O que sabemos, dizia o guia sem ter percebido o meu incômodo com o sol na cabeça, é que o grande patriarca cavou inúmeros poços por Negev, fato esse registrado tanto no Antigo Testamento como na reprodução de especialistas em geografia bíblica.

Tinha comigo um cavalo todo negro. Há menos de uma hora acreditei na conversa de outro guia, que prometeu ser aquele corcel o mais valente dentre todos. O que vamos enfrentar ali se você me recomenda o mais valente, perguntei. E o jovem negociante árabe sorriu, exibindo um dente de ouro, como um cigano em pleno deserto: não há judeus naquela região do Negev, você será “de fora” (enfatizou esse termo) e pode vir a precisar do Vizir.

Os inúmeros vilarejos, dentre os quais muitos inacessíveis até para o exército israelense, ofereciam um perigo inédito para uma jovem arqueóloga como eu, que sequer falava mais do que cinco ou seis palavras e frases em árabe. Com um cavalo daquele porte, no entanto, nada tinha a temer.

Quando meu guia gritou yallah, senti a pressão de um animal possuído se debater sob o meu corpo. Vizir, como nos quadros megalomaníacos de Napoleão, parece ter erguido as duas patas dianteiras antes de correr. Nesse movimento, meu chapéu caiu e a luz do sol, perversa, me cegou por alguns segundos. Foi quando senti o peso do enorme coração que havia dentro daquela fera equina entre as minhas pernas.

O sol se desprendeu do céu como a cabeça cruel e cabeluda de Baal, o deus dos outros, e se voltou violentamente contra o meu peito como se estivesse ali durante todos esses quase 6 mil anos com um único propósito: me acertar em cheio.

Ao longe, pude ainda ouvir a voz de meu guia, em uma representação demoníaca.

– Mantenha sua arma em mãos. O beduíno só entende a linguagem da cimitarra em seu pescoço.

Que gente é essa, meu Deus? Pensam ou apenas se arrastam sem saber para onde sobre essas areias?

Thiago Blumenthal
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