Cinema, Resenhas

08 de maio de 2014

A Difícil Arte de Amar

Love never fails.

É só contando uma história que posso ter controle sobre a versão que quero dar a ela. Só assim posso te fazer rir; é melhor do que sentir pena de mim. Só assim não me dói tanto. Só assim consigo tocar em frente. Assim pontua Nora Ephron, em seu romance “Heartburn” (no Brasil ,”O Amor é Fogo”, Editora Rocco).

A autora, quando escreveu o livro, no inicio da década de 1980, precisava tocar em frente. Depois de quatro anos de casamento com o jornalista Carl Bernstein — sim, ele mesmo, do caso Watergate –, descobriu que estava sendo traída. E por uma mulher mais alta que ela: Margaret Jay, filha do então primeiro-ministro britânico James Callaghan. Em 1986, estreou o filme (cujo título no Brasil ficou “A Difícil Arte de Amar”), estrelado por Meryl Streep e Jack Nicholson, que repercutiu internacionalmente. Bernstein, que em 1979, próximo do divórcio, afirmara que a vida pessoal dos dois jamais viria a público, tomou sua tortada na cara final.

Quem já viu o filme, dirigido por Mike Nichols — gênio também responsável por “A Primeira Noite de um Homem” (1967) e “Closer” (2004) — certamente se lembra da tortada que Rachel Samstat (interpretada por Streep) dá em Mark Forman (Nicholson). Não é spoiler. É cena da vida real e basta atentar para os minutos iniciais do filme para saber como vai terminar. Ou melhor, basta um pouquinho de realismo para prever a tempestade. Ela, dois filhos pequenos nas costas, joga a torta de limão em Forman, pede a chave do carro e parte rumo ao aeroporto; hora de voltar a Nova York, que havia deixado há alguns anos por Washington por conta do casamento. E this is the end.

Uma tragédia típica da comédia humana construída a cada fotograma, pouco a pouco. “A Difícil Arte de Amar” se resolve como um origami que se abre e se fecha nas mãos de um hábil manipulador sem jamais desfazer-se da forma, estragá-la ou amassá-la. Esse papel dobrado tem o propósito de criar situações vividas pelo casal de protagonistas muito rapidamente e depois transformar-se no seu plano mais banal e, por isso, duro da vida. OK, Nichols apresenta um casal que desacredita no casamento e temos aí, por alguns instantes, o origami formado e moldado. Acreditamos, como espectadores, no que o artista, de modo muito convincente e competente, está nos contando. O célebre pacto do público ou do leitor com a ficção. A gente compra a ideia. Ponto.

Em um roteiro linear, sem grandes reviravoltas, eu teria comigo que Rachel e Mark jamais se casariam. Seriam um casal desses que eu admiro com certo distanciamento, que passam a vida toda juntos sem nunca terem casado ou sequer morado um na casa do outro. São dois adultos, no fim das contas, que já tiveram suas experiências e traumas no passado e não querem arriscar. São inteligentes, dois jornalistas de sucesso. Como errar? Pois é na cena em que se dão o primeiro beijo, no meio da rua e na frente de um cinema em uma rua qualquer de Nova York, que temos um indício que não são eles que mandam na vida deles. Estão entregues aos vícios, aos sentimentos, às falsas expectativas, às quebras de decisão, às mudanças de opinião, tão variáveis a cada batida do coração. O primeiro beijo é invadido por uma multidão que sai da sala do cinema e ocupa a calçada inteira (ou seja, a tela, o primeiro plano). Mal vemos aquele amor que florescia brotar. São uma mancha no meio de tanta gente, de tanto cotidiano, de tantas cartadas no escuro. O filme que está passando naquela sala de cinema é “Mephisto”, produção alemã de 1981, cujo pano de fundo faustiano coroa o atordoamento humano diante de novos fatos e novas paixões. Minutinhos depois dão risada juntos, comendo na cama: “não vamos nos casar”. E se casam logo em seguida.

O “logo em seguida” segue quase uma estrutura bíblica do Antigo Testamento em que acontecimentos espetaculares e fundadores da história do povo hebreu e de Deus são recontados em apenas uma frase “E Abrão conheceu Sarai. Tiveram Isaque.” Diferentemente da Bíblia, porém, aqui os fatos partem de sua premissa contrária, como se Nichols (ou Ephron), viajasse no tempo e fosse eleito um dos escribas desses textos, optasse por um “E Abrão conheceu Sarai. Depois desistiu de Sarai”.

Pelo guia do amor — e pelas rédas deste também — o filme apresenta essa estrutura que desprende o espectador do que ele espera a partir do que está sendo contado até descolá-lo por completo. Até, ao vermos o filme pela primeira vez, já começarmos a esperar que aquela torta de limão vai mesmo parar na cara de Mark. Não porque haja uma tensão sendo construída ali (até há, mas mais como processo interno de Rachel), mas porque o diretor já foi nos apresentando pistas, desde os primeiros minutos, de que não vai terminar bem. Como quando o núcleo familiar começa a confundir as palavras socks (meias) com sex: Mark está perdendo todas as suas meias no guarda-roupa e vive atrás de novas meias para comprar. Não eram as meias.

Love never fails. Assim o padre anuncia no começo do filme, quando Rachel e Mark, distantes, ainda sem se conhecerem, assistem à cerimônia de amigos em comum. Ela, emocionada, enxugando suas lágrimas, e ele, entediado. No artesanato retórico do filme, com uma narrativa descontrolada de saltos impactantes, são eles que estão se casando minutinhos depois, no tempo da cena quando passam a primeira noite juntos. Sequer acompanhamos o “namoro”, se é que houve. Love never fails.

A máxima, bordão que move paixões através dos tempos, por si só jamais falharia se tomada em um plano individual, subjetivo. E é na costura que Ephron/Nichols faz que percebemos que o elemento subjetivo, que move montanhas e se despedaça de amor, se mostra constantemente aniquilado ora pelo seu par, no caso do casal em contraposição de expectativas, estimas e valores, ora pelo próprio acaso, pelo movimento da vida que lhes tira o chão da segurança e promove o lance dos dados. Como as cenas, os momentos e os eventos da vida que ali ocorrem para Rachel e para Mark, pouco a pouco sendo desmanchadas no plano seguinte, com um novo diálogo que apresenta um cenário não somente diferente, mas em direta oposição.

Não se espera que o amor falhe, termine ou se depare com uma terceira pessoa, especialmente se ela for bem mais alta. No entanto, é a presença do absurdo, dos detalhes dignos de uma ficção, a ser recontada ou recriada com novas cores (lembrem-se: palavras da própria autora do livro/filme), que tece as linhas de nossos diários pessoais, nunca o cotidiano.

O narrador de “A Difícil Arte de Amar” contrapõe momentos que adentram a nossa realidade pessoal, quando mais estamos desarmados, no escurinho do cinema ou entregue no sofá da sala na expectativa do inesperado, e os viram do avesso. Não acredito no casamento; pois vamos nos casar na cena seguinte. Não vamos ter filhos com uma casa nesse estado deplorável; pois estou grávida. O amor é o que há de mais essencial; mas a única razão pela qual ele é essencial é que, sem ele, passaríamos a vida inteira procurando por ele.

Love never fails: senta aí, espera até o fim do filme pra ver.

PS: Impossível não escrever sobre o filme sem mencionar a canção-tema “Coming Around Again“, de Carly Simon, reproduzida em diferentes momentos do filme (é a música que abre e fecha, em tons distintos, o longa). O título, a letra e as suas inúmeras repetições durante a história só reforçam esse ciclo infinito de desdobramentos de um mesmo relacionamento.

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Assista ao inicio do filme aqui.

Thiago Blumenthal
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