Textos

01 de janeiro de 2014

A volta ao mundo em 2 dias

Nos últimos dois dias, fiz uma volta ao mundo em meu balão, inspirado pela leitura de Jules Verne, e registrei tudo em minha conta do Instagram.

Comecei a aventura no Oriente, na Muralha da China, depois passei por Paris, sul do Brasil, Cidade do México, Houston e, por fim, Giza, no Egito, onde cheguei a tempo de ver o show de luzes do réveillon por sobre as pirâmides. Foi uma viagem de mentira, alimentada por imagens do Google, e muitas e variadas hashtags.

Não foi um experimento social a partir de um sentimento de raiva pelas trocentas mil fotos das paisagens reais espetaculares de meu amigos no mesmo Instagram. Não ligo que postem fotos de suas viagens, mesmo quando acho uma ou outra de mau gosto ou repetidas. Gosto muito de “conhecer” outros lugares pelos olhos das outras pessoas. Já adicionei muito lugar entre aqueles “pra ir um dia” graças a fotos de amigos em redes sociais.

Também não foi uma brincadeira pra rir da cara de ninguém ou, em especial, daqueles que acreditaram nas fotos ou curtiram as minhas postagens. Juro — e peço desculpa se alguém se sentiu “enganado”. Fiz o máximo que pude pra exagerar nas legendas, nos filtros, na alopração absurda, incluindo uma foto do meu balão sobrevoando o Oceano Atlântico, no meio do nada, enquanto eu dizia que era muito difícil achar internet wi-fi ali.

Tive mais “curtidas” nessas fotos do que em qualquer outra postagem real. A da China, salvo engano, foi o meu recorde. Nunca tanta gente tinha curtido uma foto minha e até me parabenizado pela aventura. Fiquei constrangido de responder:  foi meio chato revelar a uma ou outra pessoa que aquela viagem era uma mentira.

O propósito disso tudo, de ordem meramente pessoal, foi provar pra mim mesmo o quanto a minha vida real é chata, desinteressante e o quanto a falsa, a que criei, ainda que absurda e risível, é tão mais legal pras pessoas. E concluir, por mais que seja chover no molhado em um tempo de relações sociais tão superficiais e baseadas só no “show off”, o quanto é importante agradar, ser espetacular, ter um cachorro fotogênico, mostrar que conhece aquele “bistrozinho naquela rua escondida de Paris”, mostrar pros outros o quanto você gosta de ler e o quanto o livro que você mal está lendo (só folheando) é tão cool, o quanto é bom estar apaixonado com fotos de casal abraçados e emocionados diante da queima de fogos.

Os exemplos são infinitos e eu não falo aqui por uma autoridade que fica pontificando tudo do alto (e “ca*ando regra”, como dizem na internet): eu também tenho uma enorme dificuldade e tento, cada vez mais, me controlar em tudo o que quero mostrar pros outros, pra muita gente que sequer conheço.

Enfim, vejam aí como foi legal essa minha volta ao mundo em três dias do meu balão pela conta do meu Instagram. São as últimas seis imagens.

Feliz 2014 pra todo mundo, real ou ficcional.

PS: Este texto não é fruto de ressentimento de nenhum tipo. Só de leve melancolia.

 

* Imagem: flickr Caroline | The hills are alive.

Thiago Blumenthal
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