Textos

07 de janeiro de 2013

Alone

Um dos meus primeiros choques com a realidade, um dos primeiros confrontos com o que era a vida e o mundo real foi, no meio de uma madrugada, quando acordei meu irmão, falando meio extasiado: “Você viu o que aconteceu? O que foi aquilo? Onde estávamos? Por que a gente corria para longe da mãe?”.

Eu era pequeno, entre 5 e 10 anos, não lembro direito. Era um sonho, o meu primeiro sonho – ou pelo menos, o primeiro que de fato me lembrei ou o primeiro que motivou essa manifestação de surpresa – e o meu irmão, sem entender nada, falou que não fazia ideia do que eu estava falando. Virou para o lado em sua cama e recomendou que eu voltasse a dormir. Que era apenas um “pesadelo”.

O pesadelo mesmo foi saber que ninguém compartilhava dos meus sonhos. Todas as pessoas que ali apareciam não existiam naquela “vida” e, medo maior, eu estava sozinho.

Acredito que o sonho seja uma das primeiras experiências que, quando em contato com a realidade, faz com que a criança perceba que está sozinha no mundo. Que se trata de uma fantasia, de um aglomerado de memórias mal conectadas pelo nosso cérebro.

E talvez a vida seja isso: um punhado de memórias que nosso cérebro não consegue conectar. E que estamos sozinhos no meio delas.

 

 

 

* Texto publicado originalmente no Kapores, em maio de 2010, e depois traduzido para o inglês e também divulgado na revista eletrônica FAQ Magazine.

** Imagem: Fishermen at Sea (1796).

Thiago Blumenthal
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