Textos

16 de janeiro de 2013

Amour

Em determinado momento do filme Amour, o diretor Michael Haneke interrompe um diálogo complicado do casal de velhinhos e nos expõe um conjunto de pinturas. São cinco ou seis quadros, que, percebemos ao longo da história, decoram diferentes pontos do apartamento onde vivem. Não são quadros famosos, mas ilustram uma extrema solidão. Dá para ver em cada uma das obras uma figura ou outra caminhando pela imensidão do cenário, montanhas, colinas, planícies. E sugerem, a partir desse ponto do filme, o que acontecerá com os dois protagonistas.

Amour é o filme mais cruel de Haneke. Ele nos transporta anos à frente, quer sejamos adultos ou jovens. Ele nos transporta para os nossos últimos dias, para os dramas cotidianos da doença, da demência, do casal cuja esposa se torna nula, vazia, ninguém. O mal que lhe acomete somente do lado direito invade o lado esquerdo, invade a cabeça, invade a casa e suas dependências e seus detalhes domésticos. São os barulhos dos pratos na pia, a cama chiando, o celular que toca no bolso do marido sem que ele o atenda, os impromptus de Schubert que não saem mais das delicadas mãos ao piano. O mal invade tudo, cada objeto e cada som.

Sem adentrar o psicológico de seus personagens, como é próprio do estilo distante de Haneke, o diretor segura a nossa mão e nos leva a cada canto do apartamento. Conta a sua história como se ele também estivesse a acompanhando, e não contando. Temos acesso ao inconsciente do personagem pela via do sonho, e muito rapidamente, e sem nenhuma pista psicanalítica do que aquele aguaceiro todo no corredor lá fora pode ser. Haneke quer estar ali conosco, vivenciar a experiência da surpresa, da quebra do tédio, da decisão brusca tomada no fim da história.

Jean-Louis Trintignant afirmou em entrevista de outubro passado que não queria fazer o filme quando recebeu o roteiro. Achou triste demais e ele estava passando por um momento de depressão. Seria demais pra ele, não aguentaria tamanha carga emocional. Que seria capaz de se matar depois de fazer aquele papel. Quem o convenceu foi a produtora de Haneke, que disse “por favor, faça este filme, depois pode se matar à vontade”. E ele riu e topou. Certamente o papel de sua vida, junto com Ma Nuit chez Maud, de Éric Rohmer.

Georges, o papel que interpreta, é um personagem bastante oposto à esposa Anne (Emmanuelle Riva). Enquanto sabemos que ela é mais atraente, ácida, perspicaz, ele parece mais atrapalhado, com mais dificuldade para falar. Não à toa, suas histórias são menos interessantes, têm menos apelo. Relembra histórias sem graça da infância e descreve o dia a dia dos dois à filha (Isabelle Huppert) de maneira quase burocrática, programada, quase alemã, diferentemente da verborragia francesa da esposa. E a ironia é que ela é quem se degrada, quem passa a depender dele, inclusive para falar e ouvir.

O amor que os une é comovente. Ele, atrapalhado, canta uma música de amor a ela. Sur le pont d’Avigon, on y danse, on y danse tous en rond. E ela nada entende, mas se emociona feito uma criança que ouve algo que lhe é aprazível. E é contraposto a uma constante sensação de ameaça, de morte, pelo mal que se apoderou de tudo, dos dois, do discurso dos dois, do discurso fílmico, e da própria noção de amor que é despedaçada quando um dos amantes não consegue mais se ver nos olhos do outro.

É o passado que dá as cartas em Amour, não é o presente nem o futuro. Essas três margens do tempo estão soltas, despencando pelos aposentos do apartamento, mas são as memórias que entram à força na narrativa, seja pelas tentativas de Georges ou pelo saudosismo de quem sabe que vai morrer de Anne. Quando pede pra ver o álbum de fotos. Quando pede pro antigo aluno de piano tocar Beethoven. Quando, catatônica, grita cacos de vidro da infância. Pois é o passado que nos guia a todos nós adiante, mesmo que ao vazio, ao desconhecido, à solidão.

 

* Texto publicado originalmente em seu blog pessoal, o Kapores!, em 07/01/2013.

Thiago Blumenthal
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