Textos

24 de junho de 2014

Essa batalha tão misteriosa

Dois olhos esbugalhados de maneira desconcertante; a boca parecida com o bico de um papagaio, escondendo uma língua cheia de serras; oito braços (ou tentáculos) se estendendo de uma cabeça em formato de torpedo. Cada um desses “tentáculos” enfileirando centenas de dentes sugadores e afiados.

Acho que esta é a melhor descrição já dada para a quase mística lula gigante, que já foi citada de Homero, em uma das viagens de Ulisses, ao Antigo Testamento (“nos mares há um dragão”). Pra não dizer dos milhares de relatos de marinheiros e de Melville, que em Moby Dick menciona uma criatura que parece uma massa disforme com braços radiando de seu centro feito um ninho de anacondas. E que mata sem necessidade, como se a natureza, num capricho perverso, a tivesse programado com essa única finalidade.

Me parece muito mais assustador que a própria baleia.

Um dia, se eu ficar rico (?) ou juntar dinheiro o suficiente, tiro dois anos da minha vida para viajar pelos mares (em especial os próximos da Nova Zelândia, com maior incidência de aparições) e escrever sobre essa batalha tão misteriosa do fundo do mar, a da lula gigante com o cachalote – Melville passou três anos a bordo de um navio para escrever Moby Dick.

Se eu morrer antes, todos de hoje em diante saberão: terei morrido frustrado. Quando não é trabalho ou estudo, é sobre essas coisas que fico lendo às duas da manhã enquanto a angústia da madrugada não passa. Não à toa tantos homens já partiram ao mar e a ele se sentem presos, nessa conjunção meio triste de solidão e busca de sentido. 

 

Thiago Blumenthal
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