Textos

31 de julho de 2014

Fausto Fanti

John Belushi foi encontrado morto, aos 33 anos, em seu bangalô no luxuoso Chateau Marmont, em Hollywood. 1982 e eu sequer tinha completado um ano de idade. Não me lembro de nada disto, obviamente, mas tenho a recordação de ter vasculhado a vida inteira de Belushi, em especial os detalhes de sua morte (overdose por speedball, uma mistura atômica de heroína e cocaína), na minha adolescência. Quando vi Os irmãos cara de pau, eu o achei muito engraçado. São tantas as cenas daquele filme que me marcaram. Belushi e Dan Aykroyd sendo vaiados em um bar caipira, recebidos na garrafada. Aykroyd era o seu melhor amigo e estava lhe reservando um papel em Ghostbusters, que seria lançado quatro anos depois. Não deu tempo.

Pesquisei a vida de Belushi numa era pré-internet. Fiquei obcecado pela história do samurai Futaba, outro de seus grandes papéis, este para a TV, em fitas VHS que eu comprava perto da Galeria do Rock. Seus personagens descontrolados, à beira de um colapso nervoso, me faziam passar mal de rir. E a morte de todos eles, naquele hotel de Los Angeles que era à prova de terremotos, me causava um fascínio que eu descobriria, anos mais tarde, não era fase. A morte continua me encantando, em todas as suas facetas e em todos os seus desvios. A velhice, a doença, o inesperado, o acidente, o suicídio. Todas as versões dela estão aí batendo à nossa parte diariamente e a gente nunca abre, nem uma fresta. Há um breu profundo do lado de fora.

O Livro Tibetano dos Mortos, que tive o privilégio de ler no ano passado, fornece um guia para as almas que deixam este mundo. O que acontece com a nossa consciência, que é a responsável pelas nossas vidas, depois que morremos? Este período, para o budismo, é chamado de bardo. Um intervalo entre esta e a nossa próxima vida em que o agora, o presente se desfaz: só há o ontem e o amanhã, apenas o segundo exatamente anterior e o que está por vir. E como viver sem o agora? Somos matéria do agora; passado e futuro não nos fazem vivos. Os Beatles emularam essa filosofia milenar na música Tomorrow never knows, faixa que conclui o álbum Revolver.

O que aconteceu com John Belushi depois daquela noite? A última pessoa que o viu, uma mulher cuja identidade jamais foi revelada, viu que ele “respirava com dificuldade”. Perguntou se ele estava bem e ele disse que “sim, estou bem” e voltou a dormir. Foram suas últimas palavras, nada muito épico ou cheio de significado que precisamos decifrar. Ele estava bem. Com a morte, por onde teria errado a alma do ator? Por quais círculos dantescos teria passado? Se direto ao inferno, nada mais cabível para um esquete do SNL. Teria reencarnado após os seis estágios descritos pelos budistas? Para os ateus, teria acabado tudo ali, viramos pó no fim das contas. Partículas microscópicas arremessadas em algum mar em algum ritual de cremação, pó viajando galáxia afora, sem nenhum sentido, sem nenhuma direção. Sequer temos alguma direção a seguir em vida, por que teríamos em morte…

Perguntei-me a mesma coisa com a trágica notícia do suicídio de Fausto Fanti, da trupe Hermes & Renato, que tanto acompanhei desde a MTV, passando pela TV Record (onde tive o prazer de sentar-me junto à mesa deles, com João Gordo, na lanchonete da emissora, em um fim de semana de plantão), e depois em sua volta à MTV. Voltariam (voltarão?) à Fox em breve. Fanti tinha 35 anos, dois a mais que Belushi, dois a mais que eu. Não preciso me debruçar aqui sobre a sua biografia, seus personagens, seus quadros mais célebres e os mais engraçados. Somos de uma geração marcada pelo Hermes & Renato, pelo humor anárquico que hoje rende verdadeiros gênios como Bruno Maron, e todos temos os nossos momentos preferidos guardados na lembrança. E espalhamos pelas redes sociais pra tirar um pouco a tristeza da perda tão chocante.

O suicídio, em sua base, se resolve no questionamento seguinte: ou me mato ou serei obrigado a matar todos os que estão a meu redor. E o escritor Albert Camus dirá que é preciso mais coragem para viver do que para se matar. A coragem de se olhar no espelho e notar que o que se vê é somente aquilo, não tem mais nada além daquilo. E não sabemos se haverá um dia. Somos matéria do agora.

O que eterniza o presente é a memória dos outros, nunca de nós mesmos (as nossas são fugidias). Não tenho dúvida de que Dona Máxima, Wallace Guilhermino, Palhaço Gozo, Padre Gato estarão sempre presentes. E a memória vence a morte.

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.