Textos

14 de setembro de 2014

Feito por Brasileiros

Neste sábado visitei a exposição Feito por Brasileiros, que acontece no antigo Hospital Matarazzo, na Alameda Rio Claro, em São Paulo.

Nunca tinha entrado no local, que ficou fechado por mais de vinte anos, e é impressionante sua arquitetura e seu estado, em ruínas. Falar que é um cenário de filme de terror não é exagero e, aliás, até sugeriria que a mostra fosse exibida à noite, à luz de velas ou com guias adentrando todos aqueles quartinhos que outrora abrigaram gente doente (e gente que morreu) à luz de lampião. Acho que seria legal.

Entrar lá e caminhar pelos corredores, pelos quartinhos, pelos jardins, tudo isso impressiona bastante, mas, passadas algumas horas, fica a sensação de que a arquitetura, ou a atmosfera de um hospital sombrio e amaldiçoado, compete com as obras — e sai ganhando. Não que as obras sejam ruins (algumas são), mas é o silêncio dos mortos ali que mais comove. O mofo, o cheiro de mofo, o forro despencando do alto, as paredes descascando. Ou o transporte psicológico a outros tempos, pela nossa imaginação.

Há muita crítica, aliás, de que o conjunto ali só serve para maquiar um projeto imobiliário monstruoso, mas quanto a isso não sei me posicionar. Alguns artistas, como o Cildo Meirelles, declinaram de participar quando souberam de um possível “Cirque du Soleil do mercado”. Outros mantiveram suas obras, meio a contragosto. Tem de tudo lá: Tunga, Nick Cave, José Miguel Wisnik, Beatriz Milhazes. Para todos os gostos. E eu realmente gostei muito de algumas obras.

Um detalhe que me incomodou é a presença de algumas marcas, como a revista Vogue, que tem um salão enorme servindo champanhe a vips e personalidades (engraçado pensar que talvez a sala vip da Vogue tenha sido uma sala mortuária no passado). Ou ver estampado bem gigante a marca Havaianas debaixo do nome de um artista. E naquele mofo todo. Patrocínio e mecenato são necessários, mas desse jeito, e naquele cenário, ficou anticlimático. De repente a gente adentra uma sala escura, cheia de imagens de diabo, som de macumba e gritos, caveiras e afins. Procura o nome do artista e está bem grande debaixo do nome dele CASA DO PÃO DE QUEIJO.

Tirei muitas fotos, mas destaco essa, a mais natural. A de uma baratinha passeando tranquilamente pelo busto de Dom Matarazzo à porta de um dos edifícios do hospital. Aliás, fiquei pensando nisso, na quantidade de bicho que não deve ter lá dentro, entre ratos, baratas, insetos, mosquitos. E como no filme Uma noite no museu, essa bicharada toda deve interagir com a arte nas madrugadas. E confesso que gostei da ideia.

* Imagem: Zupi.

Thiago Blumenthal
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