Cinema, Resenhas

23 de julho de 2014

Ilustração:
Thiago Thomé

Grande Hotel Budapeste

Há algo de errado com Wes Anderson e com os seus filmes: tudo é certo demais, não se perde jamais o foco, o enquadramento se encaixa feito bloco gêmeo. Cerebral, seu cinema espanta pelo encaixe aristotélico de todas as pecinhas do pacote que vêm em seu quebra-cabeça: personagens, cenário, trilha, plano, paleta de cores. Preocupado em demasia com a forma, ou formalismo, de sua narrativa, o diretor não cai no gosto de parte da crítica e do público. Falta vida, não me convence, não vou comprar essa história, costumam afirmar os detratores de sua obra. O filtro foi pesado demais e forma não é nada sem conteúdo, não vejo cinema para apreciar apenas o belo em sua superfície. Quero a essência. Assim detonam Anderson.

Já fiz parte desse grupo e não, não foi este Grande Hotel Budapeste, mais novo filme do cineasta, que me fez mudar de ideia. Foi quando revi seu Os Excêntricos Tenenbaums, longa-metragem lançado em 2001, anos depois de ter assistido à sua estreia na sala de cinema. Não foi um passe de mágica, uma alta no meu humor ou qualquer arbitrariedade dessas às quais estamos todos e constantemente submetidos. Foi um golpe de vento, por assim dizer. As peças que eu já tinha encaixado anos antes no cinema, e não apreciado o resultado, desta vez se formaram com um novo desenho ali revelado, com uma mensagem forte que mexia comigo: a questão da família deslocada, de um proto-judaísmo marcante (Tenenbaum é um sobrenome judeu e o desgarre da família pelo judaísmo se evidencia em diversos momentos, tendo o seu ápice na morte do pai, enterrado com a bênção de um padre católico).

Não se tratava mais de um exercício meramente formal, gratuito, para botar no Instagram em uma era pré-Instagram e quase pré-tudo. Os Excêntricos Tenenbaums conta uma história de perda de laços familiares e do esforço de um homem, em vão, para salvar tudo isso, para esticar o braço barco afora quando seus filhos estão se afogando. O melhor foi ter entendido que um braço só não salva, não tem como salvar a família assim. Revendo outros filmes de Anderson e, depois, acompanhando tudo o que ele lançou de lá pra cá, me dei conta de seu tema — ou de sua obsessão — recorrente: o pai e o buraco familiar. Como se, para Anderson, sem essa figura paterna somos outsiders, amarrados a pequenos rituais diários, repetitivos, cotidianos, mas sem razão de ser. O pai (e sua ausência direta ou indireta) está lá em Steve Zissou, Darjeeling, Mr. Fox, Moonrise Kingdom. E agora nesta nova produção.

Tratar da questão paterna parece óbvio em um cineasta como Anderson e descobrir o que eu descobri, tardiamente talvez, não é descobrir a roda. O que faz a roda girar e minha tese sair do óbvio, pelo menos eu acho, é que, pelo tratamento estlístico dado ao tema em todos os filmes, o encaixe ultrapassa cada longa individualmente, mas complementa uma obra muito maior, a dos filmes juntos que, por ora, até o diretor conceber algo novo, se encerra em Grande Hotel Budapeste. Como se a paternidade fosse tratada por diferentes ângulos e como se cada pai (ou idealização ou exclusão ou paródia cômica) também fosse retratado de maneiras distintas. Juntos, formam um pai completo, com seus defeitos, qualidades, um ser pleno e que respira. E é o pai de Budapeste que parece cristalizar esse ideal que foi pouco a pouco sendo esculpido em anos e em moldes miméticos em Gene Hackman (Tenenbaum), Bill Murray (Zissou e mr. Bishop), na voz de George Clooney (para o raposo), na invisibilidade budista de Darjeeling. O pai da vez agora é Ralph Fiennes, que interpreta Monsieur Gustave.

Monsieur Gustave, um sujeito com padrões eurocêntricos, se apropria de um garoto árabe de recados de um hotel, o célebre Grande Hotel Budapeste, nos confins da Europa — quando rumar ao leste ainda era dirigir-se aos confins — para formá-lo, criá-lo, prepará-lo e, juntos, criarem e viverem essa narrativa. Não se conta uma história sozinho sob o risco de interiorizar-se sem expressão. E a história aqui é contada pelos dois, sem propriamente um happy ending, mas com uma intensa harmonia na relação entre os dois, algo que já dava para notar em Mr. Fox, de 2009.

Grande Hotel Budapeste conta a trajetória de Gustave, concierge do hotel em questão, no entreguerras, com Zero Moustafa (interpretado pelo jovem e talentoso Tony Revolori), o ajudante geral do local. Não se trata apenas de uma parábola sobre a guerra e seus efeitos sobre aqueles que a sofrem. Ou de um hotel luxuoso, metáfora ou símbolo de um tempo perdido, que demanda redescoberta. Tampouco um filme sobre o mal estar na civilização, em que o indivíduo fica no limiar entre seus impulsos e desejos contra uma sociedade civilizatória que o inibe. É mais simples, e talvez até mais pueril, ainda que todos os temas que acabo de citar existam em seus desdobramentos: o que temos no filme é um projeto de aventura entre um menino órfão e um pai sem filhos. A maior e a mais emocionante aventura de suas vidas. A busca de um pai inexistente se concretiza em Budapeste. Ou em Zubrowka, na criação ficcional de Anderson.

Tal tema não é novo na ficção, nem no cinema, nem na literatura. Exemplo máximo, e mais radical, de nossos tempos é Stephen Dedalus, o filho pródigo, que encontra Leopold Bloom pelas ruas e pelos mais variados locais da Dublin de Ulysses, epítome do modernismo de James Joyce, lançado há quase cem anos. O motivo é igualmente psicanalítico e, claro, tem fundação mitológica, base para o pensamento e para a teoria social de Sigmund Freud. Não vale listar todos os inúmeros exemplos, mas vale um destaque nesta lista: Stefan Zweig, inspiração explícita de Budapeste, a quem o filme foi dedicado.

Austríaco como Freud, e contemporâneo (apresentou as pinturas de Dalí ao pai da psicanálise), Zweig também tratava em seus livros de questões como o inconsciente,  a perda do controle, o limite. E nessas cavernas de nossos corações, ou mentes, buscava no próprio narrador o direcionamento teleguiado para contar algo que lhe era externo. Como se o narrador dissesse “olha, isso aconteceu comigo, mas vocês acreditem se quiserem”. E fica aquela voz em off, sempre narrando, mas você quase nem a percebe, pois são os personagens que parecem os responsáveis por seus próprios destinos, não a mão narrativa. E aí reside o truque. Tal qual Anderson. A história dentro da história.

A figura paterna, em Zweig, é complicada e também precisa ser encontrada. Ao ler Coração impaciente (considerado por muitos sua obra-prima), ali está um oficial do exército que inicia uma intensa e estranha amizade com um aristocrata que lhe oferece os prazeres de um novo mundo em seu castelo privado, como o hotel luxuoso do filme. Representante de uma sofisticação europeia, em vias de desaparecer com o nazismo na década de 1930 e na Segunda Guerra Mundial, Zweig, ele mesmo de uma endinheirada e aculturada família judia, elege uma determinada situação como ideal e trabalha sua forma com tonalidades nostálgicas, sempre de um perfeccionismo linguístico admirável. Quase sempre na figura paterna. Tal qual Anderson.

Do mesmo Coração impaciente, as palavras do começo do filme ressoam um olhar para trás, que não há nada mais errado do que a ideia de que a mente de um escritor está sempre trabalhando. Não há necessidade de inventar histórias, pois seus personagens saberão encontrar seus caminhos. Faz-nos acreditar que todos nós, como personagens descolados de uma âncora maior, ou de um masterplan (Deus, destino, carma?), temos poder para respirar por nós mesmos, tomar decisões, criar nossos caminhos, acertar no primeiro passo, talvez errar no segundo, mas pisar com mais segurança no terceiro. É difícil acreditar num narrador como esse que tanto Zweig como Anderson nos apresentam. Mas é bom sentar na cadeira do cinema e acreditar que todos nós encontraremos nossos pais, verdadeira ou simbolicamente, na fileira de trás. Como um diretor de cinema americano que descobre um livro e reflete: esse austríaco bem que podia ser meu pai.

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Assista ao trailer aqui.

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Ilustração: Thiago Thomé (Liquidpig) para a Confeitaria.

Thiago Blumenthal
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