Textos

04 de fevereiro de 2013

Harry and Bess

Ter visitado o túmulo do grande Harry Houdini me emocionou mais, como eu já esperava, que ter visto o Woody Allen ter tocado clarinete a poucos metros da minha mesa. Com um avô (paterno) que, sempre que vinha em casa, fazia uma mágica ou outra, e com o meu irmão sendo um profissional do ilusionismo, cresci nesse meio, sempre ouvindo uma história ou outra sobre Houdini. Algumas verdadeiras, outras lendas que não sabemos se procedem. Outras inventadas pela cabeça do meu avô e do meu irmão. Só para manter o mito, ampliá-lo e jamais fazer com que morresse.

Ao entrar no cemitério Machpelah, no Queens, a relação entre a vida e a morte desse artista, que causou uma sensação inédita na sociedade americana e nova-iorquina do início do século 20, foi cortada por uma atmosfera de algo permanente que ainda respira no lugar. Pelos poucos minutos que passei ali, pensei em tudo o que ele fez e conquistou em tão pouco tempo: sua inserção meteórica no universo das celebridades, seu desprendimento do judaísmo estritamente religioso (o pai dele era um rabino) e sua arte como metáfora para a escapada do homem moderno e eterno outsider que passa a vida respirando debaixo d’água, preso em algemas, cadeados, e sobrevive. E agora ele estava ali na minha frente, representado por um túmulo muito antigo em um cemitério abandonado e fantasma.

No entanto, ao fechar os olhos, a morte, uma das ordens e punições divinas que sou mais contra, não pareceu ter importância. O cenário absurdo, com portões fechados e muita ventania, me soou apenas uma caricatura do que está além e é misterioso demais para adivinharmos. Houdini, que conseguia as maiores proezas durante os 50 e poucos anos que viveu, deixou essa cartada final: algo como uma cápsula microscópica de Tebas, na periferia de NY, com a inscrição “decifra-me ou te devoro”. E o local devorando a si mesmo, tornando-se um palco de ninguém para ninguém, sem artista, sem espectador. Apenas o vento soprando muito forte.

Achei triste o fato de sua esposa, Bess, que também era sua assistente, não ter sido enterrada ali. Era esse o seu desejo e de Houdini, tanto que, quando o mágico morreu, a lápide foi feita para os dois (reparem que o nome dela está ali, mas sem data de morte). No entanto, quando ela morreu, em 1943, sua família não permitiu: católicos, não queriam que ela fosse enterrada em um cemitério judaico. Fica a boa e curiosa história desse túmulo, mas muito triste.

 

PS: mesmo com o local fechado com vários cadeados, entramos, inspirados pelo próprio Houdini: contorcendo, deitando, e criando um belo número de mágica. Obrigado, meu ídolo. 🙂

 

* Texto originalmente publicado no blog Kapores!, em 29 de janeiro de 2012.

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.