Textos

18 de março de 2014

Histórias inacabadas

A última foto que o estudante chinês Yue Wen Chao, 26 anos, tirou foi esta (foto 1), de sua namorada, que vive na Malásia (ele estuda-va na Inglaterra). Dia 7 de março, horas antes de o MH370 decolar do aeroporto de Kuala Lumpur. Postou em sua conta do Weibo, uma espécie de Twitter chinês.

Além dele, descubro que que o MH370 levava vinte artistas e suas famílias a uma exposição de caligrafia. O professor de arte Mai Mai Ti Jiang-Abullah, 35 anos (foto 2), era um deles. Suas obras (como esta da foto 3) já haviam ganhado certo destaque em Xinjiang, onde morava e lecionava.

E o professor de caligrafia Liu Ru Sheng, 77 anos (foto 4), membro da Associação de Calígrafos Chineses e diretor do Centro de Pesquisa de Caligrafia e Pintura de Nanjing. Em 2006, Liu escreveu um artigo sobre como se safou da morte por seis vezes antes em sua vida: havia sobrevivido à invasão japonesa de Nanjing em 1937 (quando tinha apenas dias de vida), um acidente de carro, afogamento e três ataques cardíacos. Carregava consigo o pingente com os dizeres “Que Deus me abençoe”.

A história de cada um: o jovem que estuda na Inglaterra e visita a namorada na Malásia; o professor que começava a ser reconhecido por suas obras; o calígrafo que esperava pela sétima prova, tal qual um gato chinês. A pintura de Mai Mai, com figuras com os braços estendidos ao alto, como em um jogo de horseball, levado à China pela aristocracia britânica no século 19.

Onde estão essas pessoas? E como vão ficar suas histórias inacabadas?

* Saiba mais sobre o desaparecimento do MH370 aqui.

Thiago Blumenthal
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