Cinema, Resenhas

08 de setembro de 2015

Homem Irracional

Para o professor Abe Lucas, Sartre é “o inferno são os outros”. Husserl é fenomenologia, Heidegger pode relacionar-se ao nazismo, Kant é seu imperativo categórico, Simone de Beauvoir é o segundo sexo, Crime e Castigo é o melhor livro para se ler antes de cometer um assassinato. E podemos resumi-lo nisso. Detalhe: ele é um respeitado professor de filosofia, ministrando aulas em uma grande universidade americana.

Lembro de uma amiga que faz algum tempo postou no Facebook o seguinte: “Você não é inteligente, você só viu alguns episódios de Seinfeld e tem acesso à Wikipedia”. Creio que esta frase poderia muito bem resumir a figura do professor Abe. Não seria ruim se tal descrição terrível coubesse apenas ao personagem do filme mais recente de Woody Allen, Homem Irracional, que estreou recentemente no Brasil, mas infelizmente creio que podemos dizer o mesmo do filme: seu roteiro não parece ter sido escrito por Woody, mas por alguém que leu a quarta capa de um Dostoiévski e sabe de cabeça, por citações inteligentinhas de Facebook de suas redes de amigos, as referências mais óbvias sobre grandes filósofos. Como disse minha amiga, “você não é inteligente, só viu alguns episódios de Seinfeld”.

Fosse o professor Abe, interpretado por Joaquin Phoenix (gosto dele), um personagem superficial, um empresário talvez, o filme seria melhor. Mesmo. Superficial, no entanto, foi a construção de seu personagem, por mãos desastradas de um roteirista que talvez possa agradar a boa parcela do público que diz gostar de Woody Allen porque, enfim, é cool gostar do diretor. É legal forçar aquele riso dentro da sala de cinema quando o personagem fala “o inferno são os outros”. Até minha priminha de seis anos sabe que o inferno são os outros. Não é mais pra rir, gente.

Não se trata de pedantismo nem de academicismo. Não desejava que as aulas do professor fossem mostradas em sua grandeza e em sua complexidade filosófica, não queria que ele lesse longos trechos incompreensíveis de Hegel ou de Husserl. Não se espera esse nível de verossimilhança na ficção, mas o rebaixamento que Woody faz dos conceitos ali apresentados faz com que o diretor caia na armadilha do qual tanto riu por sua vida toda, e em seus grandes filmes: o pedantismo barato e vazio, sequer enciclopédico, da classe que tem grana. Se Abe não fosse um respeitado professor universitário, convidado a ministrar seus cursos nos mais estimados departamentos de filosofia dos Estados Unidos e da Europa, estaria tudo OK. Fosse Abe um ricão pedante, o filme se salvaria desse desastre. E Woody não teria caído na armadilha de fazer citações banais, mas que impressionam em uma festa de ricaços, assim ao léu, just for the sake of it, como dizem os americanos.

Não vi o filme na companhia de um filósofo, mas de uma jornalista, que gostou do filme, apesar de ter concordado com o meu ponto. Reconheceu que o personagem solta frases de efeito meio bobas, que impressionam somente aos tolos, mas diz ela que deve haver alguma razão nisto, alguma coerência interna que justifique esse personagem tão mal construído. Ora, é um personagem de Woody Allen, não estamos falando de qualquer diretor. Queria concordar com ela. Mas passei a noite pensando em alguma “razão de ser” (Sartre?) deste personagem e não encontrei. Creio que não encontrarei. Até o momento minha companhia no filme também não encontrou — mas ainda espera encontrar. Mesmo quando o próprio professor Abe confessa que toda filosofia não se passa de masturbação intelectual, só de dizer essa frase já é uma masturbação intelectual. Dava pra evitar essa armadilha.

Um problema ainda maior de Homem Irracional é que o roteiro me parece todo amarrado em torno desses gorjeios pseudointelectuais falastrões, como se cada grande frase (que saudade da comunidade do Orkut “Prevejo citações”) catalisasse algum arremedo reativo forçado. Explico. Como tudo o que vem de Abe é tão óbvio, simplista, até mesmo em seus ressentimentos e pouca fé na humanidade, o enredo se torna previsível. Quando a sua namoradinha e aluna Jill, interpretada por Emma Stone, constrói em sua cabeça todos os passos do assassinato perfeito (há uma espécie de assassinato perfeito no filme, para quem não viu, uma temática interessante que sempre seduziu Woody), nós, os espectadores já sabíamos de tudo isso. Não do que o criminoso já havia feito, porque obviamente acompanhamos no filme, mas já sabíamos que Jill ia ter todos aqueles insights. O único momento imprevisível é o de elevador — não darei spoilers — mas que, diante do falatório vazio de casos e acasos ao longo da produção, até isso dá pra prever; dá pra prever que algo imprevisível vai ocorrer, se é que me entendem.

Há um grande momento no filme que, por estar em um roteiro tão banal, pretensamente inteligente, mostra-se completamente solto. Quando Jill dialoga com os pais na mesa de jantar, que criticam os escritos do professor Abe, aquela conversa é absurdamente bem escrita, não pela inteligência dos pais de Jill, que são professores do departamento de música da mesma universidade, mas pela inteligência do recorte, do momento, da precisão. Contestam o professor Abe pois, segundo eles, o primor de seus ensaios viria de sua escrita, de seu estilo, não de seu conteúdo.

Tentei encaixar essa crítica para fazer sentido a um personagem tão pobre, como em um exercício labiríntico de metalinguagem. Mas creio que não se aplica porque, no caso de Abe, sequer temos o “triunfo do estilo”. Chamar aquelas citações, à moda de Goodreads ou Brainy Quotes da internet, de “estilo” e, pior, que é aí onde Abe triunfa, não tem consistência para seus pares dentro da universidade. Abe pode triunfar seu estilo para Jill, mas para os pais de Jill é pedir demais.

Ou o diretor, como um tiro no pé, está nos chamando a todos de Jill. Não creio que seja o caso, mas, se for, é ofender gratuitamente o público. Olha como vocês são Jill e se encantam por tudo. Não pode ser isso, não vindo de Woody, que sempre respeitou seu público.

Thiago Blumenthal
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