Maridos e Esposas

Todos nós temos medo de ficar sozinho. Para Jack, que está se separando de Sally, o motor que logo o faz arrumar um novo compromisso, sua personal trainer, loirinha e muitos anos mais nova, responde a uma paúra quase insuportável da solidão.

Jack é vivido por Sydney Pollack e Sally por Judy Davis, em um dos papéis mais sintomáticos do cinema quando o assunto é separação. Sally perdeu o controle, não consegue ficar sem Jack, embora elabore um discurso civilizado e pretensamente maduro de “estamos bem, foi algo planejado pelos dois”. Neurótica, liga inúmeras vezes para o ex-marido mesmo quando sai em “dates” com outros homens. Não aceita o fato de que fora trocada por uma mulher muitos anos mais nova e com a metade de suas referências. Sally estudou em uma Ivy League, escreveu sobre arquitetura e interiores Bauhaus, e faz parte da elite intelectualizada de Manhattan. A personal trainer é uma personal trainer: confunde Rei Lear com Rei Léo e constrange um apaixonado Jack com conversinhas sobre mapa astral em festas onde a pauta deveria ser a agenda da intelligentsia nova-iorquina. E é vegetariana.

Corta agora para o outro casal em conflito, este sim que protagoniza o longa-metragem Maridos & Esposas (Husbands and Wives, 1992), de Woody Allen. Temos Gabe e Judy Roth, interpretados por Woody Allen e Mia Farrow — esta, aliás, seria a última colaboração entre o então casal, pois Mia teria descoberto o envolvimento de Woody com a enteada durante a fase final de gravação do filme (os diálogos finais do filme, profundos, mas de um casal vazio e que não significa mais nada um ao outro, teriam sido filmados já quando Mia descobrira tudo e revelam um bizarro paralelo entre ficção e realidade). Gabe é professor de literatura, ensina a classe alta a criar ficção. São alunos ricos e todos o admiram, em especial as garotas, o que se ilustra na figura de Rain (Juliette Lewis), filha de ricaços do Upper West Side com quem vive uma história de mestre e discípulo: Gabe passa a envolver-se com Rain, muitos anos mais nova e, nesse ponto de seu casamento com Judy, muito mais interessante que a esposa. Não é um affair. É aquele momento do frio na barriga, cheio de indiretas, bandeiras, quando se planta uma sementinha ali no canto da sua cabeça que diz “olha que aventura legal pode ser vivida com esse cenário que está se desenhando à minha frente. E ela é tão bonita”.

Gabe termina o seu livro e é Rain a primeira pessoa a ler. Judy, a esposa, nem faz ideia desse “relacionamento”, enquanto ela mesma se encontra apaixonada pelo colega de trabalho, o bonitão Michael (Liam Neeson), um homem em tese muito mais interessante que seu marido, mais alto, mais forte, mais sensível e que se autodescreve como “old fashioned” para suspiros da personagem. Ou melhor, assim como a figura de Rain para Gabe, Michael não é uma pessoa mais interessante que o respectivo: são histórias, são narrativas mais interessantes naquele momento do relacionamento. Judy não tem muito o que entregar a Gabe depois de anos de casamento. O sexo, quando desejado ou feito, depende de uma logística de diafragma (“espera que eu preciso colocar ali no banheiro enquanto vamos conversando do que precisamos comprar no mercado amanhã”). Intelectualmente, Judy já tem olhos mais críticos a tudo o que o marido escreve e suas opiniões não importam muito mais — não por acaso ele entrega o manuscrito de seu livro a Rain. Uma via de mão dupla, já que Judy mostra alguns de seus poemas, jamais mostrados a ninguém, a Michael, e não ao marido.

Com Rain, Gabe pode passar tardes flertando sob as folhas caindo em um outonal Central Park, conversando sobre os melhores lugares do mundo para se beijar (Paris, no caso), quanto tempo dura a paixão em um relacionamento (quatro anos, segundo a revista Time). Com Michael, Judy pode fazer seu lanchinho no trabalho na praça em frente à revista onde trabalham e, no meio de uma tempestade inesperada, sair correndo com ele pelas ruas, os dois de cabelos molhados.

Em um dos momentos mais inspirados do filme, Gabe faz uma brilhante autodescrição, que justifica muito de sua aproximação por Rain: sempre teve uma queda pelo que ela chama de “mulheres kamikaze”. Elas têm uma tendência autodestrutiva enorme e ele acaba se apaixonado por elas. No entanto, como ele está (e quer estar) no mesmo avião que elas, ele acaba se autodestruindo, morrendo junto. Há um aspecto trágico, de um fatalismo romântico que precede à Verona dos Capuleto e dos Montague, ou antes mesmo de Werther. Quase um pré-determinismo fatal, da tradição grega, do personagem que parte em busca de sua própria derrocada, neste caso, emocional — apenas transportado para o contexto da metrópole, ou de seu símbolo, Nova York (em oposição ao contexto mais fechado de pólis ou urbe). Como se o aspecto trágico o interessasse em uma vida real de poucas aventuras, e de muitos diafragmas, em um cotidiano que só nos é suportável pelo material ficcional. E quanto mais trágico melhor. E eu realmente gosto que assim seja. O fim de Gabe, como pode-se supor, é trágico. E bem, Judy termina como a atriz que a interpreta, Mia Farrow. É preciso assistir ao filme para estabelecer os traços entre atriz e personagem; faça isso se ainda não viu. Imagino que Mia odeie esse filme.

A solidão dá o tom em Maridos e Esposas e seu diretor, Woody Allen, expõe uma fenda narrativa que não se resolve pela separação. Um relacionamento em crise não se resolve pelo divórcio ou pela troca automática de parceiros. A solidão faz uma sombra enorme em Manhattan e todos os personagens do filme vivem ou sob ela ou sob o seu receio (“pode chover, vai chover” / “podem invadir minha casa enquanto eu estiver sozinha aqui”). Não há, pelo menos formalmente, uma solução para todos ali, o que, visto pelo filtro do espectador que ali se identifica, não há solução para nenhum de nós quando um relacionamento não vai bem. Talvez Judy tenha encontrado em Michael o seu ponto de equilíbrio, a resposta para as suas ânsias e o perfeito espelho para o seu jeito “old fashioned” de amar, mas até quando Michael irá satisfazê-la? Michael até pouco tempo estava apaixonado por Sally, sim, a Sally de Jack. Como na quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Ou em sua máquina do mundo, em que as paixões, os impulsos e os tormentos, tudo o que define o ser terrestre, mesmo no sono rancoroso dos minérios, “dá volta ao mundo e torna a se engolfar/ na estranha ordem geométrica de tudo”.

Corta para Jack e Sally. Jack e Sally, me desculpem o spoiler, reatam ao fim da filme. Jack se cansou da astrologia filisteia da personal trainer. Resolveram seus problemas, mas quais problemas? Eles não tinham problema algum, tirando o sexo, algo que, em conversa com um suposto psicanalista/documentarista que intervém ao longo do filme para revelar a psicologia de cada personagem, quase como uma espécie de quebra de quarta parede cinematográfica, não foi resolvido. Não é spoiler: alguns casais são feitos para a eternidade, para protegerem-se um no braço do outro, durante uma tempestade no meio da noite.

 

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Assista ao trailer aqui.

 

 

* Imagem: still do filme.

Thiago Blumenthal
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