Textos

23 de dezembro de 2013

Minha despedida de 2013

Na mitologia japonesa, a província de Izumo guarda a entrada do Yominokune, algo parecido com a noção de inferno para nós, ocidentais. Não deve ser fácil viver lá se se é supersticioso. Em “Glimpses of Unfamiliar Japan“, o primeiro de muitos livros de Lafcadio Hearn (Koizumi Yakumo) dedicados ao Japão no século 19, que comecei a ler de maneira solta recentemente, o autor descreve alguns detalhes do local em um trecho muito interessante.

Em Izumo, as raposas eram evitadas ao máximo – por todo o país, na verdade, mas mais em Izumo, segundo o autor. Cruzar o olhar com uma delas era algo mais temido que a própria morte. No folclore japonês, a raposa pode se transformar em um ser humano, geralmente mulher, e encantar quem estiver por perto. Pior é quando ela possui, diabolicamente, o corpo da mulher e a atormenta até a morte, algo chamado, em japonês, de kitsune tsuki. Não à toa, até hoje no Japão, se você quer ofender uma mulher, chame-a de kitsune (raposa – penso que no Brasil seria até meigo). Me corrijam se eu estiver enganado e não for mais uma ofensa atualmente.

Uma maneira de se proteger das temidas raposas é juntar as mãos de uma maneira especial, em formato de diamante, e proferir uma prece budista. Alguns textos zen-budistas afirmam que a prece (um mantra?) e as mãos juntas fazem soltar um raio que espanta a raposa. Mas já começamos a entrar no imaginário ficcional de qualquer mística. Não vem ao caso.

As raposas são tão malandras que, em Izumo, fizeram dois trens colidirem um com o outro. Apareceram, ao mesmo tempo, para ambos os condutores em suas cabines. Fazem você sentir como se estivesse no meio de um terremoto, com tudo tremendo (algo que a gente sabe que é problemático no Japão). Em 1888, quando o Bandai-san entrou em erupção (bem longe de Izumo), destruiu tudo a seu redor e matou centenas de pessoas, um camponês, no meio do caos e daquele fogaréu, preferiu ficar imóvel, tendo seu corpo consumido lentamente por uma chuva fervente de lava; ele achou que era uma visão de uma kitsune, não a dura realidade.

Até 1894, quando “Glimpses of Unfamiliar Japan” foi publicado, os relatos das possessões eram dos mais bizarros. Gente correndo pelada pelas ruas e berrando noite afora, falando outros idiomas, e alimentando-se somente do que raposa gosta de comer: o tofu em especial. Parentes faziam de tudo para a kitsune deixar o corpo (queimaduras, golpes de espada), mas ela só saía na presença de um yamabushi que podia realizar o “exorcismo”. Se realizado com sucesso, a vítima nunca mais comia tofu na vida. É o trauma. O que é um detalhe engraçado.

Li no Wikipedia, agora de noite, que ainda hoje muitas pessoas acreditam no kitsune tsuki. E que até o começo do século 20, a explicação oficial médica para alguns casos de evidente distúrbio mental era a da possessão demoníaca por raposa.

É véspera de Natal e também véspera de ano novo. E eu aqui falando em demônios em forma de raposas (e mulheres) no Japão – em um texto enorme e sonolento. Nada a ver. Mas como muita gente tem falado em resoluções para 2014, fica aqui a minha: no ano que vem, me debruçar sobre a cultura japonesa. Muita gente não sabe, mas tenho um tio e três primos japoneses. Mesmo distante deles, com pouco contato, sinto um orgulho todo pessoal e meio besta de ter japoneses na família.

E não, não mudei de planos e não estou trocando NY por Tóquio. Ainda não. O tempo – e o quanto eu mais aguentar dele – dirá.

Vejo vocês todos em 2014. Feliz Natal e feliz ano novo pra todo mundo. Sem raposas diabólicas e sem textos enormes e sonolentos!

 

* Imagem: Ohara Koson.

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.