Textos

10 de dezembro de 2013

O Cachorro e o Darma

Uma das muitas histórias do Mahabarata hindu, e uma das que mais gosto, é a do príncipe Iudistira, que passou por muitas provações em sua vida, foi expulso do reino por perder num jogo de dados (detalhe nonsense da Índia e do hinduísmo), ficou treze anos no exílio e, pouco antes de ascender aos céus, peregrinou pela região montanhosa dos Himalaias. Até aí tudo bem. Lembra um pouco Jó, do Antigo Testamento.

O detalhe legal é que um cachorro o acompanhou por toda essa peregrinação até que chegasse ao pico da montanha mais alta – seus irmãos caíram antes, literalmente, para o Inferno, ou Naraka. No topo, Indra, o deus dos trovões e da chuva, o recebeu com sua carruagem dourada para que Iudistira pudesse subir aos céus. Ele adentrou e chamou o cachorro, mas este não foi permitido. Cachorros não entravam na carruagem.

Então Iudistira se retirou da carruagem e disse que não poderia abandonar o cãozinho, leal e companheiro, ainda que seu destino fosse o Paraíso. Foi quando o cão se transformou na imagem de seu pai, Pandu e, de Vidura, o Darma encarnado, que representa a lei cósmica e universal do mundo. Etimologicamente, o conceito do Darma fundaria a base de qualquer religião, seja oriental ou ocidental.

O cachorro, nesta história, é uma representação da ordem natural das coisas, algo pelo qual é preciso manter-se firme, igualmente fiel. Eu deveria escrever isso no aniversário do Palito, mês que vem, mas agora já foi, saiu antes. Depois copio tudo de novo e boto num diploma bem cafona na parede.

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.