O pequeno mundo azul de Ronnie Von

Era um garoto de traços finos que subia em um palco do célebre Beco das Garrafas, em Copacabana. Pernas trêmulas, rosto enrubescido, Ronnie Von soltara ali os primeiros versos de You’ve Got to Hide your Love Away, dos Beatles, em 1965. Acabara de completar 21 anos, mas já era casado com Aretuza, a garota que tinha nome de ninfa grega. E um ano depois, arrastava multidões de menininhas por onde quer que passasse com seus carros e no comando do célebre Programa Jovem Guarda, da TV Record.

O resto, poderá dizer o seu público, é história. Mas não é uma história qualquer, e sequer começa aí: começa bem antes. Temos aqui uma biografia que não é mais das simples quando os vértices e os extremos de uma mesma vida se cruzam, se intercalam e se sobrepõem.

Ninguém nunca havia feito um mergulho tão profundo e tão apurado na vida desse artista, até esse registro de fôlego dos jornalistas Antonio Guerreiro e Luiz Cesar Pimentel; motivos não faltavam. Havia, sempre houve, resistência do biografado, que com a idade tornou-se um mestre absoluto da discrição. E tantas reviravoltas, da criança fascinada por estudos e conhecimento passando pelo piloto de avião. As mulheres, a televisão, a figura emblemática que passaria a habitar o inconsciente do brasileiro. A fase psicodélica, celebrada até hoje, pela nova geração. E o principado.

Foi Hebe Camargo quem lhe deu o apelido de “pequeno príncipe”, nos conta Ronnie Von – O Príncipe que Podia Ser Rei, livro lançado no começo de agosto pela Editora Planeta. Hebe, com seu olhar preciso para tudo e todos que despontariam no showbiz brasileiro, notou que aquele rapaz, o primeiro a gravar Beatles no Brasil, muito bem instruído e charmoso, seria “o cara mais boa pinta” do país. Mais que Roberto Carlos. E é na defesa deste argumento que os autores do livro se inspiraram para percorrer a vida de Ronnie em um fio condutor de mais de meio século. O título não é casual: o rei certa feita teria colocado uma foto do príncipe à sua frente e cantado os versos que hoje todos sabem de cor: “querem acabar comigo/ isso eu não vou deixar”. Hoje sabemos que Ronaldo não acabou com Roberto Carlos. Mas podia — a coroa de ouro do programa Qual É a Música?, de Silvio Santos, é dele.

Estruturado em uma linha do tempo, em que os fatos da vida do cantor vão sendo apresentados em ordem cronológica ao longo de 15 capítulos, o livro faz um interessante movimento de aproximação e distanciamento do contexto histórico de todas as décadas e fases da carreira do artista. Mais do que um estudo vivo e dinâmico da alma de uma estrela, a vereda escolhida pelos autores joga luz sobre a história política, social e cultural do Brasil. Do século 15, remontando a Mem de Sá, toda a árvore genealógica de Ronnie atravessa de capitanias hereditárias a hierarquias de banqueiros e donos do mundo da vida real. E pincela a ordem das coisas em um mundo de guerras e pós-guerras, que dá o retrato do nascimento do artista, aliás (a Segunda Grande Guerra).

Há quem considere, ainda hoje, o gênero da biografia um dos mais ingratos dentro do jornalismo. Difícil ser justo com a representação do biografado sem cair na extremidade do sensacionalismo mais raso, que poderia agradar facilmente uma fatia maior e mais preguiçosa do público leitor, e sem cair na outra ponta: a da neutralidade que, embora honesta, pode nada acrescentar ao que queremos saber de um ídolo, de uma personagem relevante para a sociedade. Parece-me que o equilíbrio encontrado pelos autores, diante de um homenageado tão complexo, foi perfeito na medida em que há um tom pessoal ali em cada descoberta, em cada gaveta que foi vasculhada, nas fotos mais antigas que nem sempre queremos revê-las. São fotos que ficam guardadas em nossa memória, mas sempre geram certo mal-estar quando redescobertas no toque dos dedos (a propósito, o livro conta com imagens ótimas).

Sem nenhum tom invasivo, Guerreiro e Pimentel descobriram um personagem, que, com todos os vaivéns dignos de uma ficção das mais inverossímeis — como aponta André Barcinski, na contracapa da edição —, é um ser humano. Ronnie Von não é apenas um dos artistas mais relevantes e queridos do país; ou um sujeito sensível cujos olhos sempre brilharam por enxovais, decoração e a gênese da “mãe de gravata”; nem apenas um piloto ou um príncipe Midas da publicidade. Ronaldo é um sujeito como eu, como você, com erros, acertos, episódios surreais. Dessas pinceladas que trazemos a novos cenários que vão se apresentando à nossa frente e que dão as cores dignas do filme, do roteiro hollywoodiano.

Isso não faz de Ronnie Von um indivíduo ordinário nem compromete sua relevância biográfica. Pelo contrário. Ao humanizar-se, tornamo-nos mais próximos do personagem e compreendemos melhor esse imenso e, por vezes, aterrorizante mosaico de nossas vidas — e nada, talvez, foi-lhe mais terrível do que a neuropatia periférica, raríssima enfermidade.

Como dirá a letra de Meu Mundo Azul, sucesso de 1967, para encontrar esse mundo basta fechar os olhos do rosto e abrir os da alma. Lentamente. É com os olhos da alma que devemos ler e entender Ronnie Von. E esta biografia é o instrumento perfeito para quem assim deseja fazê-lo.

 

* Imagem: Sinister Salad Musikal.

Thiago Blumenthal
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