Textos

12 de março de 2014

O que não se vê na Europa

Hoje passei por uma família de brasileiros perto da Quinta Avenida com o Central Park. Aliás é o único lugar na cidade onde ouço português na rua mais frequentemente, o que pode significar que o poder de compra do brasileiro aumentou muito ou que só vem a Nova York para fazer compras, como Miami. Não que isso seja um problema, cada um viaja pra fazer o que quer, mas é só uma constatação: brasileiro só anda pela Quinta Avenida. Mas divago…

Enquanto o farol não abria, passou pela gente, entre as outras trocentas milhões de pessoas, dois sujeitos com roupas bem humildes falando espanhol. Provavelmente de algum lugar da América Central, voltando para casa depois de um dia cansativo de trabalho. Pareciam felizes, amigos conversando e aproveitando o dia de sol para andar um pouco por uma parte da cidade que certamente não é a deles. Mas romantizo…

Reparei que a família feliz, com sacolas da Hollister, Abercrombie e afins, ficou atenta à dupla de amigos. Eis que um dos brasileiros turistões me solta essa:

— É, mas essas coisas a gente não vê na Europa, não…

Fiquei com raiva. O sujeito falou como se os brasileiros fossem superiores a todo o resto da América Latina, afinal lá estavam eles fazendo suas compras e voltando berrando e cuspindo na rua, enquanto uns e outros moram aqui, usufruem da economia e do sonho americano, e sequer aprendem a falar inglês. Na Europa não é assim, não, atentem. É outro nível de gente que se vê na rua.

Minha vontade era me virar pro sujeito e falar: djow, brasileiro, chicano, hispânico, somos todos um só. Somos latino-americanos, quer você queira ou não. Não é o seu hotel, o status em seu passaporte ou a sua sacola da Hollister que vai provar o contrário.

No entanto, me calei: o brasileirão estava certo. O passaporte dele é a sacola da Hollister, é o seu cartão de crédito que, como já disse alguém por aí, também é a navalha.

Atravessei a rua e fugi da Quinta Avenida como quem corre da barbárie.

 

* Ilustração de Thiago Thomé (Liquidpig) sobre foto da Quinta Avenida, Nova York.

Thiago Blumenthal
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