Textos

05 de março de 2014

O trem

Não sei onde passa trem (trem mesmo, não metrô) aqui perto da minha casa, no Brooklyn, mas às vezes ouço um apito à distância atravessando a madrugada. É o som da América, da costa leste à oeste, das travessias e do Destino Manifesto.

Não há nada de meu passado nem de minha identidade neste som, neste trem. Qualquer associação que eu faça com ele me é estrangeira, assim como a milhares de não americanos que vivem aqui. No entanto, este trem à distância nos une em sua jornada rumo ao desconhecido.

São 3h20 da manhã em Nova York, faz frio, e a calada da noite faz emergir memórias imperfeitas, modeladas pelo ego e submetidas a nossos sonhos para o futuro. Uma projeção do tempo que não existe, como o trem distante que se projeta sempre além do que podemos ver.

 

* Imagem: Nova York antiga (AP).

Thiago Blumenthal
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