Textos

22 de abril de 2013

Os fins justicam os meios

Lembro que a primeira surpresa que tive ao entrar e começar a trabalhar em uma redação de jornal, em 2008, foi o total controle burro exercido pelos chefes. Tive poucos trabalhos em minha vida, acho que passei mais tempo estudando que trabalhando, mas o que vi nas duas redações que trabalhei (Folha e R7) não dá pra comparar com qualquer outro trabalho meu anterior. Chefe fica em cima o tempo todo e quer que você faça exatamente do jeito que ele acha que é o melhor. Não importa se você entrega uma matéria redonda ao seu leitor: se não foi do jeito que seu chefe pediu, se você não seguiu a apuração que ele te orientou, se você não olhou no Manual do Estudante da Abril em vez da Wikipedia pra checar se Nietzsche se escreve assim ou assado, você está lascado e leva bronca.

Jornalista, em geral, tem um apego meio cego às fontes. É do tipo que, por falta de confiança no próprio taco e na própria formação, precisa se apegar ao crédito bem certinho: Fonte – Joãozinho da Silva. Foto – Mariazinha Bezerra. Confiam mais em um Manual do Estudante da Abril tosco, desatualizado e superficial, que na internet, no Google ou na Wikipedia. Não se garantem, então que sobre tudo pra fonte. Se a foto está ruim, está aí o nome do vilão. Se a informação está errada, é culpa da fonte. Nem editor nem repórter botam o seu na reta e, no fim, salvo uma demissão ou outra, fica tudo em casa.

Este tipo de postura ganha uma proporção maior e quase cômica quando uma revista bem conceituada ou um jornalzão comete um desses erros de apuração bizarros, que revelam o quanto o profissional desta área tem uma formação humanística quase tão ruim quanto o segundo grau dos jovens brasileiros. É comum encontrar informações básicas erradas em uma revista como a Piauí, por exemplo. Para uma revista que, de maneira pretensiosa e preconceituosa, se vende como “para quem tem um parafuso a mais”, chega a ser falta de respeito com o leitor que não espera encontrar países com as capitais erradas, por exemplo. Ou gente falando do que não entende absolutamente nada. Tem casos na Piauí de que parece que colocaram um jogador de futebol pra falar de Kant. Não dá. Esse “parafuso a mais” está mais para um Frankenstein todo desorientado e torto.

E aposto que na redação dessas revistonas mais cult o controle ao que o repórter ou o redator acessa é até pior que em um jornal diário como a Folha. Wikipedia deve ser até bloqueada nos computadores deles – e, mesmo assim, na hora de “checar”, eles vão lá no Manual do Estudante Edição Blaster of the Universe 2013 e erram a capital da Polônia.

Este assunto me surgiu agora e me fez escrever aqui porque tenho percebido, com choque, que esse controle burro dos editores tem ocorrido até com os freelancers. Tem editor (de revista, jornal ou livro) querendo controlar como o seu tradutor/repórter deve trabalhar, o que ele pode acessar, o que não pode.

Uma amiga minha recebeu um teste de tradução para fazer em casa. Pra traduzir um livro de gastronomia do inglês para o português. O teste consiste de dez páginas no PDF, enviado na sexta-feira de noite com o prazo de segunda-feira de manhã. Desconsidera-se, pra começar, se a pessoa tem ou não fim de semana. Para piorar, o PDF veio todo travado e de ponta-cabeça, com muitas frases meio apagadas. Igual xerox. Tudo tosco mesmo. Pra segunda.

A praxe é que qualquer trabalho de tradução seja feito a partir de Word ou qualquer formato compatível que permita a seleção de texto. Que permita o tradutor seguir seu próprio modus operandi – o meu, por exemplo, é traduzir direto a partir do documento original. E, a cada parágrafo traduzido, vou apagando. Assim, evito trocas de janelas a cada trecho traduzido e o trabalho fica bem melhor e mais rápido. Até mais garantido que não vou dar nenhum “salto” (que é esquecer de traduzir alguma frase ou parte).

E a editora mandou para esta amiga um PDF, que não permite seleção nem nada. Ou seja, ela tem que ficar traduzindo de frase em frase, trocando de janela, enquanto eventualmente acessa o seu dicionário online em uma terceira janela – ou uma pesquisa no Google, em uma quarta janela. Um trabalhão que gera um enorme atraso e, claro, pode gerar erros de saltos ou digitação ou até idiomáticos mesmo.

Até pouco tempo todo mundo mandava em Word. Até pouco tempo, mesmo que você não tivesse o texto disponível no Word, qualquer editora profissional conseguia transformar um PDF para o Word. Existem profissionais e máquinas e programas que fazem isso. Não dá pra mandar um livro inteiro pra uma pessoa traduzir a partir do PDF. É ridículo. E isso tem acontecido cada vez mais.

O que isso tem a ver com o controle dos chefes chegando até os frilas? Para mim está clara uma desconfiança infantil do tipo: “não vamos te mandar no Word para evitar que você use o Google Translator”. Qual o problema com o Google Translator, desde que a pessoa saiba a língua de origem? Qual o problema com a Wikipedia, com o Google, com a internet? Os chefes, por estes controles bobos do que pode ou não servir de pesquisa e de ferramenta de trabalho, estão querendo encerrar seus funcionários – e agora até os frilas – em masmorras com um lápis e uma borracha na mão. Ou um computador sem internet.

Falo por mim mesmo: uso o Google Translator, a Wikipedia, o Google Images e, eventualmente, até o tosco do Yahoo Respostas, quando a coisa está muito feia mesmo. Mas uso também livros, referências e dicionários consagrados para trabalhar, seja traduzindo, escrevendo ou editando. O que isso importa ao meu chefe? O que importa se usei o Google Translator ou o Oxford pra traduzir um trecho mais difícil? O que importa se usei a Wikipedia ou algum capítulo da biografia do Churchill escrita pelo Roy Jenkins pra checar alguma informação importante sobre o primeiro-ministro em qualquer ensaio que eu esteja escrevendo sobre a Segunda Guerra? O que importa se pedi pra minha mãe, namorado, melhor amigo ou até ao meu cachorro pra traduzir uma matéria para uma revista?

Nestes tempos sombrios do jornalismo e da produção editorial, continua valendo a máxima atrapalhada de que a execução vale mais que a conclusão.

 

* Imagem: Maquiavel, autor da máxima que batizou esse texto (“Os fins justicam os meios“).

Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.