Textos

21 de dezembro de 2012

Os melhores filmes de 2012

Não sei se foi um bom ano pro cinema. Gostei bem mais dos dois últimos anos do que de 2012. Tanto que não foi tão difícil selecionar dez filmes para compor a lista dos meus preferidos.

O primeiro lugar foi facinho de escolher. “Holy Motors” é um filme que, assim que você entra na sala do cinema, abre-se um buraco meio cibernético abaixo dos seus pés e da sua cadeira, e te passa a sensação de desequilíbrio, de “vou cair” a todo o momento. Era a experiência que todos precisávamos, do cinema voltando a te deixar sem ar, como os primeiros filminhos do trem chegando na estação, quando as pessoas, ainda desacostumadas com a “mágica” do projetor e da telona, se assustavam e achavam que o trem ia invadir a sala.

2012 foi o ano também do Batman, do atentado que chocou todo mundo na estreia. Sem dúvida, o filme mais assustador do ano. Bane me arrepiou.

Nesta lista, vale lembrar, entram filmes que vi em 2012, mas que não necessariamente tenham estreado no Brasil neste ano. “Beasts of the Southern Wild”, por exemplo, é um filme que não chegou até hoje por aqui. Enquanto o francês “O Exercício do Poder “é de 2011 e chegou com um atraso absurdo.

Vamos à lista, do décimo ao primeirão. Clique no título para ser redirecionado ao trailer do longa:

 

10 – Argo, de Ben Affleck

Nem ia colocar na lista, entrou no desempate. Gostei de como o diretor mantém o clima de tensão presente até o fim, até o momento em que os funcionários da embaixada conseguem finalmente sair do Irã, após uma série de checagens no aeroporto e um plano que tinha tudo pra dar errado. O diretor te coloca bem próximo de toda a ação, te coloca no grupo e nas ruas iranianas, sem forçar a barra, sem te jogar tudo aquilo na cara sem maiores explicações. É um filme sério e elegante, só que feito pras massas.

 

9 – Drive, de Nicolas Winding Refn

Confesso que vi da telinha minúscula, do avião, com áudio podre e fone de ouvido pior ainda. E mesmo assim gostei. Não só porque tem a Carey Mulligan, nem só porque tem o Ryan Gosling. Mas porque o filme une uma atmosfera de filmes antigos, em que o carro é sempre a fera motorizada protagonista, com uma estética legal e uma história que, apesar de ser meio bobinha, sustenta o nosso amigo Ryan correndo pra lá e pra cá com sua máquina de morte.

 

8 – Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Filme que passou batido aqui no Brasil. Mal foi visto, mal foi comentado. E de todos desta lista, à exceção talvez de Fausto e Holy Motors, é o que tem a estética mais bonita. Um filme silencioso, com pouquíssimo ruído, com personagens falando baixo, quase sussurrando, em cenários simetricamente calculados, com uma cor que lembra à da discrição da aristocracia. E uma história e tanto: mulheres que são pagas pra dormir e terem o seu corpo possuído por homens que nunca viram nem vão ver. Até que…

 

7 – Fausto, de Aleksandr Sokurov

É uma livre adaptação da obra de Goethe. Não esperem que o enredo siga no enorme filme exatamente o que acontece no enorme livro. E é isso, apesar de bem longo, o filme não entedia pois tem um bom ritmo e diálogos que prendem a sua atenção, ainda que pouca coisa de fato aconteça no diabólico pacto com Mefisto.

 

6 – The Cabin in the Woods, de Drew Goddard

Já começa sensacional na abertura, cortada repentinamente por uma cena que nada tem a ver com o filme de terror que te prometeram no trailer ou no pôster. E é aí que começa The Cabin in the Woods, um filme de terror cheio de metalinguagem e referências que te deixa na confortável posição de “o que está acontecendo por trás das câmeras”. Um exercício de produção e de estilo que poucos filmes de terror toparam fazer antes. Para agradar o público nerd em cheio. Esse filme é uma surpresa e tanto.

 

5 – O Exercício do Poder, de Pierre Schöller

Essa produção francesa pode ser lida como uma aula cinematográfica de como filmar uma história política com um foco narrativo complexo e que se desdobra aos poucos em um mosaico de corrupções, paixões secretas, tudo sob o pano de fundo da vida pessoal de um ministro em crise. Com o país em crise. Alternando momentos surreais (aqui explicitados sob a câmera em sonho do personagem) com longos takes tomados por um diálogo, à moda de Eric Rohmer, o filme sempre vai inserindo algo novo na narrativa sem avisar, o que é uma ousadia não muito comum ao cinema francês.

 

4 – Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitln

Infelizmente esse filme não chegou no Brasil. Nem vem mais, até onde sei. Vi em NYC. É uma alegoria da tragédia do Katrina em 2005, mas sem mencioná-la e sem mencionar New Orleans. Acompanhamos a história de Hushpuppy, uma garotinha que de tão forte a confundimos com um menino – somente ao longo do filme que percebemos que é uma menina. Vive em uma casa tomada por água em uma pequena comunidade que se une para não serem dali expulsos. Acho que o trailer, que você pode assistir clicando no nome do filme acima, vai dizer muito mais que qualquer descrição ou análise minha. Acredite.

 

3 – The Dark Knight Rises, de Christopher Nolan

Vi esse filme na semana de estreia ainda sob o impacto da tragédia em Aurora, em que um cara saiu atirando dentro do cinema. E, sabendo que o prefeito Michael Bloomberg havia ordenado que todas as sessões tivessem vistorias para entrar nas salas, temi ainda mais quando o cinema em que fui (em plena região da Times Square) não teve nenhum tipo de checagem pra entrar. Não olharam minha mochila nem a de ninguém. Confesso que tudo isso ajudou a me deixar ainda mais neurótico com o filme, com aquela voz do Bane, com um Batman pouco útil à sociedade. E o filme, o mais assustador do ano, é muito melhor que os dois primeiros da trilogia de Nolan, mesmo com o Coringa no segundo. Minha humilde opinião.

 

2 – Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

O melhor filme de Wes Anderson. Melhor que os Tenenbaums e que Mr. Fox (até então os meus preferidos dele). Conto mais e melhor do filme aqui. Mas, outra coisa pessoal – e de novo do tempo de NY -, apesar de o filme ser quase o melhor do ano (faltou pouco), o que mais me marcou mesmo foi eu tê-lo visto ao lado da Peggy, de Mad Men – a atriz Elisabeth Moss. Loira, o que me fez não reconhecê-la à primeira vista, ela se sentou do meu lado. Conversamos enquanto o filme não começava, conversamos depois que o filme acabou (é o preferido do Wes Anderson dela também) e, na saída do cinema, ela tomou um táxi e eu peguei o metrô de volta pra casa. O triste momento que a fama separa duas realidades.

 

1 – Holy Motors, de Leos Carax

O diretor retoma sua parceria com Denis Lavant, iniciada nos anos 80 com Boy Meets Girl e Mauvais Sang, e faz uma obra-prima do cinema moderno que, como disse lá em cimão, dialoga bem com a era das cavernas da sétima arte. Holy Motors te expõe a uma realidade incompreensível, com um enredo absurdo, em que a representação (em seus múltiplos sentidos) é colocada à prova sem parecer atingir um grau máximo de alteridade. Denis Lavant representa uma série de tipos que saem de dentro de sua limosine e se transforma a cada “missão”. Tudo isso devidamente introduzido por uma cena inicial em que o próprio diretor aparece acordando de um sonho e adentrando em uma realidade mais estranha que a própria ficção da qual acabara de sair. Reitero e explico melhor: apesar de 2012 ser um ano ruim de filmes, Holy Motors é a melhor produção que vi em anos. Bate qualquer filme da última década facilmente. Entrou pra minha lista dos prediletos da vida.

 

* Imagem: still do filme “Holy Motors”.
Thiago Blumenthal
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