Textos

23 de fevereiro de 2015

Os Sete Mensageiros

Uma amiga, que não falava comigo há quase três anos, me escreveu hoje, trocamos algumas palavras e eu a atualizei com um pouco da minha vida recente. Como reencontrar alguém que foi ao Butão, sem correio, sem telefone, sem acesso à internet. Para ela, ainda sou o Thiago de três anos atrás. Ainda moro naquela rua, naquela casa, faço aquilo da vida, estou com aquela pessoa (e poderia ainda ser mesmo, mas, no caso, mudou tudo e ela se surpreendeu). Somos como os outros nos veem, e eu sou como ela me via, no passado – porém enquanto me conjugo no presente, seu olhar se conjuga no pretérito. Me prenderam lá, 2012, e esta tarefa, este esforço, de ser como eu quero que me vejam se revelou absolutamente inútil.

Me senti o personagem daquele conto do Dino Buzzati, “Os Sete Mensageiros”, em que o filho de um rei sai para explorar toda a extensão daquele reino. Os dias passam, os anos passam, e parece não haver limite, não haver fronteiras, o reino nunca acaba — para manter-se informado de tudo o que acontecia no palácio real, a jornada era acompanhada por sete mensageiros, que, em intervalos regulares, iam e voltavam com as notícias de lá e de cá. Como a distância aumentava cada vez mais, os intervalos idem; a ponto de os mensageiros demorarem dezenas de anos entre a ida e a volta. E as notícias chegavam lá e cá já antigas, desatualizadas: nem ele era mais aquela pessoa nem o reino se mantinha fiel ao relato do servo.

O conto termina de forma melancólica (leiam porque, ao recontá-lo assim, só o empobreço): o príncipe se despede de um dos sete mensageiros, sabendo que não o veria mais. Matematicamente a ida e a volta levariam 34 anos e, já em idade avançada, ele não suportaria esperar tanto. O tempo, que durante toda aquela insana jornada, lhe havia coberto de camadas sobrepostas de passado disfarçadas de presente, agora exigia a aliança final, e atemporal: a investida contra uma vida jamais realizada no presente: ele era o que relatava aos mensageiros e, na corrida contra o destino, sempre ficava pra trás.

“Uma nova esperança me fará prosseguir adiante até amanhã de manhã, na direção daquelas montanhas ainda não exploradas, que a penumbra da noite teima em esconder. Mais uma vez, levantarei acampamento enquanto Domenico desaparece no horizonte, na direção oposta, levando minha inútil mensagem ao tão distante palácio.”

* Imagem: Julia Geiser.

Thiago Blumenthal
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