Textos

14 de julho de 2015

Plutão continuará existindo; a literatura, não.

Ainda não sei bem o que fazer com a imagem que foi hoje divulgada de Plutão.

Certamente há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia e eu creio que a astronomia, dentre todas as ciências, é a que mais consegue nos religar ao desconhecido — de tentar respondê-lo. Não há filosofia o bastante, tampouco teologia ou literatura, que se aproxime das respostas que todos nós desejamos do que um foguete, uma sonda, uma nave. Não há psicanálise possível diante de Plutão.

Ainda assim, Plutão se revela desse jeito para a New Horizons, depois de quase uma década; eu tinha 24 anos, começava a estudar um autor chamado Franz Kafka no meu mestrado e, bem, naquela época Plutão ainda era um planeta e eu achava que a literatura era mais importante que a astronomia. Eu não sabia ainda que a literatura não servia para nada, que não me salvaria nos momentos que eu mais dela precisaria, que não me traria resposta alguma.

Blumfeld, o solteiro, refletindo sobre as vantagens ou não de ter um cachorro de estimação e que depois passaria a ser perseguido por bolinhas de celuloide, nunca me respondeu nada. Nem seria o médico rural, unido ao corpo do paciente, e de seu mal, que me ajudaria em coisa alguma na vida.

E hoje tampouco é Marcel que me responde coisa alguma, nem Albertine, nem ninguém. Nem a minha mãe, nem o rabino mais sábio do bairro, ou o sensei mais paciente do betsuin. Não há Deus nenhum que se presentifique e me responda por quê.

Entretanto, eu continuo perguntando e estudando. Já não tenho mais esperança pra ter resposta alguma. Mesmo. Às vezes eu penso que deveria parar de pensar na morte e parar de temer que daqui dez anos eu não vou ver a New Horizons chegar a outros horizontes, antes de acabar sua bateria e vagar pelo espaço sem fim. E se eu não estiver aqui? Não vou saber de nada, não vou ver, também estarei vagando pelo espaço sem fim, sem bateria. Meus amigos vão compartilhar novas fotos, entusiasmados com o feito, com a humanidade, com o infinito. Manhattan já terá sido coberta pelos mares. As pessoas estarão lendo Harper Lee ou qualquer outra praga literária.

Mas eu não estarei mais aqui.

Eu realmente ando muito desanimado. Às vezes acho que o meu coração é mais frio do que os 230 graus negativos de Plutão.

Enquanto estou aqui preso a uma contagem um pouco desenfreada para o meu fim, Plutão vai existir e sabe-se lá o que mais há além. Até o Sol virar uma supernova e varrer todo o sistema solar do espaço. Seremos sugados, os vivos, os mortos, a literatura, os deuses todos que inventamos, as memórias, as histórias, os amores.

 

* Imagem: Tom Toro para a New Yorker

Thiago Blumenthal
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