Textos

03 de dezembro de 2013

Por quê?

De acordo com Italo Calvino, a vida de uma pessoa consiste de uma série de acontecimentos, sendo que o último pode mudar o significado de todos os outros. Não porque a morte conte mais do que os anteriores mas porque, uma vez inclusa, todo o antes se rearranja em uma ordem que não é cronológica: na verdade, corresponde a uma arquitetura interior própria e sem volta, sem chance de ser reescrita ou reavaliada.

Lendo agora esse belo ensaio sobre literatura e morte (e também morte na literatura) do James Wood que saiu na New Yorker desta semana, a gente se lembra de duas coisas: (1) os personagens de um livro não morrem na história porque “tinham que morrer”. Morrem porque o narrador assim quis – uma ilustração definitiva com a vida real é o Antigo Testamento: quem ali morreu que não foi por desígnio divino? E (2) as vidas de todos nós giram em torno de uma única pergunta: por quê?

Death gives birth to the first question—Why?—and seems to kill all the answers. And this first question, the word we utter as children when we first realize that life will be taken away from us, scarcely changes, in depth or tone or mode, throughout our lives. It is our first and last question, uttered with the same incomprehension, grief, rage, and fear at sixty as at six. Why do people die? Since people die, why do they live? Why are we here? What is it all for? Maurice Blanchot puts it well in one of his essays: “Each person dies, but everyone is alive, and that really also means everyone is dead.”

 

 

* Imagem: thesciencebookstore.

Thiago Blumenthal
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