Cinema, Resenhas

04 de dezembro de 2014

Ilustração:
Confeitaria

Saint Laurent

Louise Vava Lucia Henriette le Bailly de la Falaise. Ninguém poderia mais se adequar à biografia de Yves Saint Laurent do que Loulou, como era conhecida. Não fosse ela, não teríamos o célebre Le Smoking, da coleção de outono/inverno de 1966, uma das pedras fundamentais da história da moda e evocação máxima dos tempos; Loulou, berço de ouro, alquimia da aristocracia europeia, e símbolo maior de la folie de la Rive Gauche, a margem francesa da capital francesa. E Yves, argelino privilegiado, arauto do prêt-à-porter, revólver sem direção da alta costura da segunda metade do século.

Quando assisti à biografia de Yves Saint Laurent, dirigido por Bertrand Bonello, atualmente em cartaz, me pareceu que uma das camadas interpretativas do filme se dá, em justa medida, pela composição e pelo arranjo de elementos em oposição. Não apenas Loulou com o estilista, mas do feminino com o masculino. Há um discurso presente, e que o filme sabe aproveitar muito bem, de dominação ou imposição do homem diante da mulher. A moda é ditada pelos homens, não pelas mulheres, dirão dez entre cada dez manuais básicos desta indústria milionária. Ao propor o uso do bolso, reproduzindo o modelo de Chanel (com a jaqueta bouclé) de uma década antes, Yves tem uma proposta explícita: a revolução da mulher estará em repetir a leveza das roupas dos homens. O caimento, os quatro bolsos, a fluidez dos movimentos, tudo pronto para usar, carregando um espírito revolucionário: da inversão dos polos, visando o vestuário masculino. Não por acaso, as mulheres inicialmente se sentiam masculinizadas quando provavam um smoking da grife da Rive Gauche.
Para quem conhece a história do estilista, o filme apresenta uma pirotecnia colorida, com uma trilha sonora que gostei bastante, de todos os momentos de sua vida sem comprometer-se tanto com possíveis desvios ficcionais. Moujik, o cão que vale por quatro. As referências: Mondrian, com o vestido de 1965; Proust e o quadrinho ilustrando o seu quarto, que lhe é dado por Pierre Bergé (anos depois o casal decoraria o quarto no Château Gabriel, em Bénerville-sur-Mer, tal qual o de Proust); ou o Proust na figura de Swann, que Yves usa como codinome para se hospedar em um hotel em Paris para “dormir”; as curvas, as cores e o imaginário de Picasso, Matisse, Van Gogh. A Belle de Jour Catherine Deneuve. Está tudo lá sem exageros autorais.

Gostei muito do filme porque o diretor acompanhou bem a estética de cada período da carreira do estilista, e de maneiras inusitadas. Como quando apresenta algumas coleções valendo-se dos blocos de cor de Mondrian tomando toda a tela, ou pela investigação do passado, em sua cidade natal Oran, com a sutileza dos dois primeiros volumes da Recherche proustiana. Mesmo sendo longo, assim o filme não fica cansativo; o biografado, e suas histórias, ajudam demais, mas o talento do diretor se revela em juntar todo esse mosaico sem ficar, no fim, às escuras. Ao fim, e isto é uma curiosidade, é o próprio diretor que aparece como editor do jornal Libération para noticiar a morte do estilista (mas ele ainda estava vivo). Não poderia matá-lo.

Vi o filme duas vezes em dois cinemas distintos. Primeiramente no Belas Artes, depois no Reserva Cultural. Vi um casal de homens, gays, muito mal vestidos. Vi outro casal, hétero, pior ainda e pensei em indicar-lhe a sessão ao lado, algum filme argentino qualquer com o Ricardo Darín. Um terror. E olhei a mim mesmo sentado no meio da longa fileira de cadeiras, em uma semiescuridão própria do cinema, meus sapatos um pouco gastos e não engraxados, minha camisa, pulôver, a calça que, devido ao tempo, já se encontra um pouco desalinhada. Suspirei, como sempre suspiro diante de minha própria imagem. Felizmente minhas companhias estavam impecáveis e meus olhos foram subjugados por sua beleza e por uma certa memória que sempre me impele a buscar além, fora de mim, a graça. Um pouco como Yves, que ora via a mãe (no passado idealizado), ora via a si mesmo (no presente caótico), em suas modelos e em seus conceitos. A fragilidade, e a fragilidade da perfeição, esgotavam Saint Laurent, que repetia “eu não tenho mais vida”, “não quero mais me ver”. Amava os corpos sem alma, pois a alma está alhures.

Thiago Blumenthal
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