Textos

20 de maio de 2015

Textão

Textão – Ou afinidades eletivas entre o jornalismo e o Facebook

Um dia normal em sua vida hoje passa por uma hora, uma hora e meia, lendo jornal, consumindo notícia. Você pega a Folha, o Estado, os impressos, as edições para iPad ou qualquer outro dispositivo. Em uma estimativa exagerada, você passa duas horas do seu dia lendo notícia. Tirando as horas que dorme, o resto do tempo do seu dia, e de sua vida, você passa no Facebook. Direta ou indiretamente. Não importa se está jantando em seu restaurante preferido, ou se está trabalhando, na “correria”, como se diz. Se está com sua namorada, com o seu melhor amigo, a amante, até mesmo seu chefe. Sempre haverá uma aba aberta para o Facebook. Sempre haverá um aplicativo apitando notificações das mais inúteis que, por uma espécie de normofobia coletiva, você lhe dá importância.

Seus amigos estão no Facebook, primeiro ponto. As pessoas com quem fala, que admira, de quem deseja estar a par, ilustres desconhecidos, residem e convivem, harmoniosamente ou não, naquele espaço privilegiado onde todos podemos ser o que quisermos — e mais, podemos ser lidos, o que nos rende a experiência e revolucionária de sermos publicados e instantaneamente lidos. O Corinthians perdeu, aquela PEC foi aprovada na Câmara, a Kim Kardashian lançou um livro só com suas selfies, e você vai comentar, em poucas linhas, ou no que hoje costumam chamar de “textão”, opinar, revelar algo de sua privacidade, reclamar, compartilhar aquele poema de amor para o qual justamente você prevê um público, um leitor, que o aplauda, que o leia, e que, dentre esses muitos likes, você torce demais para aquela menina que tirou uma foto de biquíni na semana passada curtir também.

Um dos pontos de minha tese de doutorado, que nada tem a ver com o Facebook, nem com jornalismo, tampouco com comportamentos contemporâneos diante da revolução digital, é o papel da canonização do autor, ou como se chama na França, de auteur. Foi com o romantismo alemão que criou-se esse status; antes uma obra era uma obra, Dom Quixote era Dom Quixote, mas As Afinidades Eletivas, a partir da virada dos séculos XVIII para o XIX, eram o livro de um autor, um autor chamado Goethe. E o papel da literatura no mundo, e da publicação impressa de ficção, passou por uma profunda transformação, que respinga em nossos dias: um livro ser obra de um autor representa uma maneira de ver o mundo distinta, e o produto escrito passa a ser consumido de outra maneira, por outros olhos, mais próximos e, por que não usar o método goethiano, com maior afinidade entre quem lê e quem escreve. Amamos um livro, devoramos uma obra para que (ou porque) ela nos comova, nos traga alegria, nos traga tristeza, nos toque, nos provoque. O livro, antes, era um objeto de pura retórica para fins, vá lá, retóricos.

Com o Facebook, passamos por uma revolução, que é também cultural: tornamo-nos todos autores, criadores de um texto que é lido, compartilhado, curtido, comentado. O texto deixou de ser matéria impressa em um jornal, ou deixou de ser conteúdo de um site específico, um blog pessoal, para ser a obra de um autor que não somente possui uma plataforma de publicação de qualidade, mas uma plataforma que lhe expõe em tempo real, a dezenas, centenas ou milhares de pessoas, sem sequer a necessidade do clique. Principalmente sem a necessidade de o leitor em potencial dirigir-se a uma determinada URL para que possa ler. Com o movimento vertical do mouse, ou com o movimento vertical do dedo na tela do seu dispositivo, você lê o que um amigo, convertido em autor, publicou. A partir desse momento o seu amigo, o seu colega de trabalho, a sua paquera, todas essas pessoas convertem-se em autor.

Saindo um pouco da esfera teórica, ou semiótica, para o aqui e agora, o New York Times e o BuzzFeed americanos dão seus primeiros passos neste sentido (saiba mais aqui), o que eu, e você, já havíamos percebido muito antes. Quando você fez aquela crítica à política desastrada de determinado governador, tenho certeza que você não titubeou: em vez de postar no seu blog pessoal, no seu tumblr, preferiu escrever os nove longos parágrafos diretamente no Facebook. É onde você tem mais leitores, leitores mais ativos, que comentam, que dialogam, que enriquecem ou empobrecem o debate que você propôs. Com uma certa hesitação natural desses novos tempos, você até abriu esse post com um “Desculpem o textão, mas tenho algumas palavrinhas para falar sobre…”, mas seguiu em frente com naturalidade. No fim das contas, talvez reflexo dos novos tempos, as pessoas leram o seu “textão”, muita gente comentou, de modo que todos saíram satisfeitos dessa experiência. Você, autor, ganhou o que todo autor filho de uma geração romântica deseja, que é ser lido; e o leitor não precisou se esforçar, não precisou clicar em um link que demora, em média, com uma boa velocidade de 4G e com um bom aparelho (ou com um bom laptop ou desktop em casa), 8 segundos para abrir. Muitas vezes para entrar em um site com leves poluições visuais e nem sempre com a melhor das interfaces. Seu leitor, caro autor, continuou onde ele já estava, o centro do mundo moderno, a Babel, a Constantinopla dos novos tempos, o Facebook. É ali que tudo gira, é ali que você, além de consumir notícia, e escrever para seus leitores, é ali que você vive hoje, todas as horas do seu dia, com exceção daquelas que lê o jornal impresso e da hora que vai dormir. Não negue. E aqui uma contenda, que pode funcionar como desafio: se você não se encaixa nesse perfil, um dia vai se encaixar. Se esse dia não chegar, seu filho virá para representar esse papel que você tanto se esforça em negar. Diz a sabedoria oriental que os filhos, cedo ou tarde, nos decepcionarão.

Ainda é cedo para afirmar se a nova estratégia do NYT e do BuzzFeed, os dois primeiros gigantes das redes sociais a adotarem conteúdo exclusivo para e no Facebook, dará certo. Há quem afirme que a principal desvantagem desse novo sistema está em dar de graça (ou compartilhar) o seu leitor com Mark Zuckerberg. Tendo a discordar: mesmo em termos de negócios, ninguém conhece melhor o seu consumidor do que o Google ou o Facebook; certamente mais do que o gerente de marketing de sua empresa na Barra Funda. Em termos pessoais, conheço, hoje, muito melhor o público da editora da qual sou sócio via nossa página no Facebook. Se eu fosse esperar conhecer o público da Lote 42 pelas pessoas que vão na Banca Tatuí, banca que vende nossos livros e de outras editoras independentes, eu estaria contando com pessoas que compram muito pouco e com velhinhas da Santa Cecília que passam para dar bom dia. Em termos de negócios, de dinheiro, a Lote 42 não seria nada sem o Facebook.

Um ponto a se considerar, dentre as diversas possibilidades de esse tipo de publicação ser negativo é a do arquivo. Enquanto outros portais, blogs e sites possuem, em geral, uma busca bastante precisa e fácil de um texto, não se pode dizer o mesmo do Facebook que, mesmo com as inovações recentes em termos de busca, ainda é confuso demais e cria um labirinto muitas vezes sem saída. Acredito que a empresa já esteja lidando com essa questão e possa, eventualmente, apresentar uma ferramenta de pesquisa decente a todos nós e aos próprios veículos que estão ainda testando a novidade. Mas só o tempo dirá. Quando o Google tentou ser Facebook, não se deu bem. O que acontecerá quando o Facebook tentar ser o Google?

Para concluir, gosto sempre de lembrar que Lou Reed escreveu que “people get all emotional sometimes, they think they’re on TV”. Se todos nós estamos, ou queremos estar, nessa grande televisão, vejo todo o sentido do mundo em publicar diretamente por ali mesmo e para nós mesmos. Penso até que a Confeitaria poderia publicar esse textão de sete parágrafos diretamente na sua página do Facebook, e não no site.

 

Imagem: Otto Steininger

Thiago Blumenthal
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