Textos

05 de dezembro de 2012

The Chicken, the Eggs and the West Side

Na cena final de Annie Hall, a personagem de Diane Keaton se despede definitivamente de Alvy Singer, vivido por Woody Allen. A narração em off relembra uma velha piada:

O cara procura um médico e diz que seu irmão está louco, porque acha que é uma galinha. O médico, claro, pergunta: por que não interná-lo em um hospício? E ele diz que até internaria, mas não pode porque ele precisa dos ovos.

E compara essa situação aos relacionamentos. Por que a gente se envolve tanto sabendo que é uma loucura? Justamente porque nossa sobrevivência, e a de nossos corações, depende disso: precisamos dos ovos.

Boa parte da história, que ganhou o Oscar de melhor filme em 1978, se passa na ruas do Upper East Side. E aqui vale uma breve explicação: da rua 59 até a 110, a ilha de Manhattan é dividida em três partes: lado leste, lado oeste e, no meio, o Central Park. Dá pra visualizar bem aqui no mapa.

O apartamento da Annie fica no East Side. Boa parte dos passeios que eles fazem – inclusive o cinema, para o qual ela chega atrasada – fica daquele lado da ilha. No entanto, Woody Allen escolheu o Upper West Side para a cena final, da separação, que eu acho uma das mais bonitas do cinema americano.

Talvez haja uma explicação mais ou menos racional para isso, que segue um pouco o fim do livro The Great Gatsby, do Fitzgerald, que também se passa em NY e nos arredores de Manhattan. Como um Destino Manifesto moderno – e todo torto – a ideia principal no imaginário americano é sempre conquistar o outro lado, avançar, go west.

A personagem de Annie fez essa escolha. Trocou NYC pela Califórnia, trocou Alvy pelo empresário malandrão vivido por Paul Simon. Foi pro lado de lá. Quando ela se despede de Alvy, ela atravessa a rua no sentido oeste, e ele volta cabisbaixo para o leste. Ele fica, não para criar raízes, mas para consumir essa derrota emocional em anos de terapia. Disponibilizo o fim do filme abaixo para a checagem – ela vai pra esquerda.

Neste ano, ao me ver naquela esquina, que já tinha passado algumas vezes mas sem a mesma sensação, bateu algo estranho. Mais do que toda essa interpretação um pouco barata do filme, lembrei da piada dos ovos e da galinha. E lembrei que “I still need the eggs”. Como todos nós, eu acho. 😉

* Publicado originalmente no blog Kapores em janeiro de 2012.

Thiago Blumenthal
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