Cinema, Resenhas

18 de setembro de 2014

Tudo pode dar certo

Muito já foi dito sobre Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen, seja por Larry David ser o protagonista (Boris) — na junção de dois ícones da cultura pop das últimas décadas –, ou por ser um filme em que o diretor nova-iorquino retorna ao humor, depois de uma sequência de filmes de ordem mais dramática, entre 2005 e 2008 (Match Point como destaque nessa fase).

David funciona como uma mistura de si mesmo com Allen, no sentido de que é um descrente, acha que o mundo é um vazio imenso sem Deus, sem nada, um pessimista, com humor negro e sarcasmo. Aqui o ator se sente muito à vontade, encontra-se em seu território, algo pelo qual ficou marcado desde a série Seinfeld, que criou no fim dos anos 1980. O mesmo pode-se dizer de Allen; sua última marca neste sentido pudemos ver em Magia ao Luar, filme mais recente do diretor, atualmente em cartaz (aqui na pele do mágico interpretado por Colin Firth).

Enquanto Allen usa uma estratégia irônica mais fina (não a inglesa, mas a judaica) sempre voltada pra si em seus filmes, David, neste longa de 2009, aponta sua arma pra todos que estão à sua volta, até mesmo para a nova namoradinha de 21 anos, quando a chama de “débil mental”, “tosca” e outros mimos. Tal qual um Portnoy com sua “Macaca”, em O Complexo de Portnoy, de Philip Roth.

No título o filme faz referência a uma ideia, uma espécie de estilo de vida do protagonista, que explicita ao espectador ao quebrar a quarta parede: não importa que o mundo ao seu redor seja terrível, sem sentido, sem Deus, com sofrimento e traições. Tudo já está prévia e inevitavelmente fadado à tragédia. Mas o que quer que seja que te dê um alívio, uma sensação ainda que mínima de prazer ou contentamento, agarre-se a isso, pois whatever works. Ao dirigir-se ao espectador, em um interessante e explícito trabalho de quebra ficcional, olhando para a câmera, Boris dá uma pausa em suas tragédias pessoais e conta com nossos ouvidos, com nossa indulgência. Em especial no que se refere a relacionamentos.

Não existem relacionamentos que duram para sempre e é bom estar ciente disto, afirma a tese do filme. Agarre-se ao amor, a uma menina bonita e legal que goste de você, pois isso te dará um respiro. Mas calma, isso vai dar certo só até o momento de tudo desmoronar, um dos dois trair, alguém deixar de gostar do outro, surgir uma nova paixão. É preciso ter isso em mente.

Muito é dito e pensado sobre o amor no filme, como no diálogo em que Boris diz à antiga esposa (antes da mocinha de 21) que o problema daquele relacionamento é que ele via nela uma estátua idealizada: era bonita, inteligente, interessante, gostava de artes, literatura. E tinham um milhão de assuntos em comum pra conversar. Segundo ele, era esse o problema. Já com a mocinha, tudo muda — ela não sabe o que é um knish e chama de kwish, por exemplo.

Tudo Pode Dar Certo não é propriamente um retorno triunfal ao humor de Allen. Acerta em alguns pontos, na escolha do protagonista, na velha piscadinha para a câmera, na quebra da ilusão cinematográfica que Allen aprendeu, sem dúvida, com os filmes de Federico Fellini. No entanto, derrapa ao contrapor essas duas visões, entre a realidade lá fora, a namorada loira e linda de 20 e poucos anos que surge inesperadamente, e o mundo interior de Boris, suas neuroses, suas frustrações, de maneira muito radical, com uma mão um pouco pesada. A teoria que o personagem quer que engulamos rabisca com força a ponto de amassar o papel da vida real. Quando é a vida real que, muito mais que o discurso internalizado, mais interessa. Há uma mágica acontecendo do lado de fora, mesmo no que dá errado — e o personagem, não fica muito claro por quê, não se dá conta.

É o redor, que se descola de toda teoria, de toda intimidade, que continua a nos comover com as surpresas mais absurdas do mundo. E assim poderia retratar a ficção, sem a qual não sabemos se suportaríamos viver. Tudo Pode Dar Certo, ficcionalmente, expõe essa falta de ar de um mundo em que a ficção, ou a mágica, não faz mais sentido para alguém. O problema é que quer forçar seu público a acreditar nisso. Eu quase acreditei. Ótimo para o filme, para as intenções do diretor, mas confesso que não estou me sentindo muito bem.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, EUA, 2009). Direção e roteiro de Woody Allen. Com  Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill e Conleth Hill. Duração aproximada de 92 minutos.
Thiago Blumenthal
Leia mais textos de Thiago aqui.