Textos

06 de abril de 2014

Denúncia

Eu havia “fixado residência” em um bairro repleto de amenidades, o que me permitia fazer tudo a pé.

Passava por bares onde estudantes se associavam indiscriminadamente, restaurantes que serviam refeições a preços acessíveis, lojinhas que vendiam roupas compradas no freeshop, papelarias que — francamente, não sei o que vendiam nem que espécie de pessoa compra nesses lugares — cheios de clipes de papel coloridos e uma máquina de xerox muito velha e grande. A máquina de xerox sempre ocupava um espaço desproporcional dentro dessas papelarias e o atendente, invariavelmente, era o elo perdido.

Na maior parte do tempo, eu olhava para o chão. Não tenho problema algum em pisar em divisões da calçada ou linhas. Até mesmo pisar com 70% do pé dentro de uma cor, 20% numa linha grossa pintada no chão e os 10% restante numa cor completamente diferente da primeira. Eu olhava para o chão pelo interesse na infinidade de “vida” que encontrava por ali.

Ficava impressionado em como as pessoas, dentro dos bares e restaurantes, conseguiam comer sendo que, ali fora, a pouquíssimos passos de distância, havia um número infinito de baratas que dividiam as calçadas com fezes de cachorro (há um quelque chose de inadequado nessa palavra fezes), urina de gente (curiosamente, urina é uma palavra um pouco mais aceitável), copos de plástico, bitucas de cigarro e, isso eu juro “por tudo que há de mais sagrado”, um calor sujo e grudento (veja que esse bairro fica dentro de uma redoma de acrílico riscado e bastante embaçado, onde é sempre verão sem chuvas. O aquecimento central do bairro é realizado por escapamentos de ônibus fabricados em 1985).

Eu fantasiava filmar a minha caminhada, da barata no meio-fio ao prato das pessoas nas mesas postas na calçada. Eu poderia inserir informações nesse vídeo educativo, sobre a quantidade de coisas que levam à morte, para provar que isso tudo é de uma “falta de higiene preocupante”. Eu queria acusá-las, apontar o dedo e dizer “wow, vocês são mesmo nojentos!”

Houve um dia, em particular, que se destacou dos outros. Tive o privilégio de assistir a um restaurante sendo dedetizado. E passei por lá em boa hora — no momento em que as baratas passavam da cozinha para o mundo. Um pouco apressadas, devo dizer. Os dedetizadores agiam como se tudo fosse muito normal.

Eu não entendia a função daquilo. Promover esse êxodo temporário para as ruas. Quanto tempo ia durar? Uma semana? Mais dez ou vinte baratas embriagadas correndo pela calçada.

Três passos à frente, uma porção de pessoas continuava acomodada em mesas na calçada, comendo enrolados de salsicha com pimenta e café preto, alheias como sempre.

 

* Ilustração do próprio autor para a Confeitaria.

Thiago Thomé
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