Pé na Bunda, Textos

29 de outubro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte II

Cada um tem o seu método, como cada um tem a sua loucura; apenas estimamos cordato aquele cuja loucura coincide com a da maioria.
– Miguel Unamuno

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

004

Ele sempre foi um banana. Mas era o meu banana, de mais ninguém. Quando compramos o Totti não pensei que a situação chegaria ao limite. O Totti era nosso poodle toy. Uma graça, branquinho, branquinho. E lá vai o banana a cuidar dele todos os dias. Eu achei ótimo. Andava de manhã bem cedinho e à noite, logo depois que chegava do trabalho. Até aí tudo bem. O problema foi quando ele leu em algum lugar que a coisa civilizada a se fazer era levar um saquinho plástico para – como posso dizer? – recolher o cocozinho do Totti. Já na primeira vez que ele voltou com o saquinho cheio, me revoltei. Ele era o meu banana – MEU, você entende isso? Aquele poodle não tinha o direito de humilhar o meu marido. Primeiro pensei em chutar o Totti para fora. Mas ele era uma graça, branquinho, branquinho. Então foi ele no lugar. O banana.

 

005

Era uma graça de pessoa. Ria e franzia o nariz. Não cansava de olhar aquele narizinho. Pensava que podia envelhecer na companhia daquele nariz. Sempre que a gente ia para a praia insistia em passar o protetor solar fator trinta nele. Não queria que envelhecesse antes da hora. Claro que sabia que o narizinho também ficaria velho e os franzidos que eu tanto gostava deixariam marcas profundas com o passar dos anos. Só queria cuidar bem dele, que mal há nisso? Até que um dia ela espirrou. Daquele nariz perfeito saiu uma massa esverdeada. Entre a boca e o objeto admirado dependurava-se algo que se parecia com a ilha da Córsega. O encanto acabou no mesmo minuto. Até mesmo Napoleão teria desistido.

 

006

Rompi nosso relacionamento porque ficou velha e me fazia velho. Casamos com a mesma idade, dezoito anos, mais de sessenta anos atrás. Em uma noite fria de julho, fiquei olhando o lóbulo inferior da sua orelha esquerda. Parecia um papel dobrado dezenas de vezes e depois aberto. Aquelas linhas curtinhas indo em todas as direções. A minha orelha devia estar assim também. Eu não queria lembrar do meu lóbulo esquerdo toda vez que olhava para ela.

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
Leia mais textos de Tobias aqui.