Pé na Bunda, Textos

05 de novembro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte III

O que um diz sobre o outro diz mais sobre este um do que sobre o outro.
– Anônimo, mas poderia ser Espinosa

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

007

Foi um problema onomatopeico. Estava casada há pouco mais de doze anos quando me dei conta. Não aguentava mais os barulhos que vinham do seu corpo. Não estou falando de roncos e assovios bizarros. Me refiro aos joelhos clicando suas juntas todas as manhãs. Levantava e ouvia o primeiro estalido. Colocava o pé no chão e mais um estalo para o direito e outro para o esquerdo. Era como se ele fosse desmontável e encaixasse pedaço a pedaço no caminho para o banheiro. Depois de escovar os dentes, as coisas ficavam ainda piores. Entrelaçava os dedos no alto da cabeça e espreguiçava como um gato. Parecia um xilofone de ossos. Chamei ele para conversar. Disse que tive um estalo.

 

008

Ela era espetacularmente linda. A expressão muita areia para o meu caminhãozinho nem começa a explicar o casal que a gente fazia. Mesmo que eu tivesse o Grand Canyon das caçambas seria incapaz de levar aquele areial numa única viagem. Até que eu – espetacularmente idiota – perguntei porque ela se sentia atraída pelo matchbox dos homens. Disse que eu tinha alguma coisa de Steve Buscemi e que isso a deixava louca. Fui direto pro Google. Quando surgiu aquele rosto na tela, finalmente me dei conta. Era como se olhasse no espelho pela primeira vez. Nem é preciso dizer que não tive mais coragem de ligar pra ela.

 

009

Terminei com ela porque usava pantufas. Estavam encardidas e arrastavam no chão do quarto para a cozinha e da cozinha para o quarto. Tchec, thec, tchec, tchec.

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
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