Projeto Pé na Bunda – Parte IV
Pé na Bunda, Textos

12 de novembro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte IV

“Amor, uma insanidade temporária curada através do casamento”

Ambrose Bierce

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

010

Compras do mês no supermercado perto de casa. Ele empurrava o carrinho e eu apontava nas prateleiras os produtos da nossa lista. Essa é a nossa dinâmica de casal, sabe? Caçadores e coletores – é que ele sempre diz. Até que passou uma loira com uma minissaia pornográfica bem no corredor dos enlatados. Observei a reação dele e a dela. Um olho no morzaum e outro na biscate. Ele até que foi bem discreto. Não encarou, nem desviou o olhar. O problema foi o comentário. Virou pra mim e disse: essa moça não parece brasileira, deve ser sueca. Fui embora na mesma hora. Deixei ele ali a ver latas de ervilha. Agora, você já sabe. Qualificar uma loira como sendo procedente da Suécia é desastre na certa. O potencial fetiche-simbólico é explosivo. É demais para qualquer mulher. Se precisar dizer alguma coisa, escolha sempre o país vizinho, a Noruega.

 

011

Pêlo nas costas. O que mais eu preciso falar? É isso. Quando percebi que tinha levado um cro-magnon para a casa foi o fim. Se fosse inverno pelo menos. Mas tava um calor danado e eu só conseguia ficar olhando aqueles milhares de pêlos, cada um com uma gotícula de suor se equilibrando na pontinha. Me dá até arrepio. Meus próprios pelinhos devidamente banhados na água oxigenada levantam cada vez que lembro daquela cena. Dá uma olhada…

 

012

Ela tinha memória de enxadrista. A gente colocava todos os produtos de higiene pessoal em cima da bela pia de mármore preto e branco do nosso banheiro. A maioria das bisnagas, frascos e vidrinhos eram dela, claro. Perfumes, óleos, creminhos pra mão, ungüentos mágicos, lavandas e colônias importadas, sabonetes provençais, demaquilantes espanhóis, pomadinhas, destifrícios em pó, sais de banho, buchas japonesas, anti-rugas de açafrão. Cada um usado em uma ordem específica. Abria sempre com um creminho chamado Bishop, que só ia na pontinha do nariz e no biquinho dos seios. Depois, partia para o ataque com produtos mais baratinhos, como ela dizia. Sacrificava sem dó as embalagens, que, esvaziadas, iam direto pro cestinho de lixo. Terminava com seu perfume favorito, Queen Bee. Dia desses, voltou pra casa e percebeu que algumas coisas estavam fora do lugar. Berrou que a empregada tinha mexido e derrubado o potinho amarelo que tinha comprado em uma lojinha de Porto Alegre: o Rei das Frieiras. Ficou desesperada. Me levou também ao desespero. Dei um xeque-mate na Kasparova.

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
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