Textos

21 de dezembro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte IX

Só o cinismo redime um casamento. Um casal precisa ser muito cínico para fazer Bodas de Prata.
 
– Nelson Rodrigues

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

025

Eu adorava os soluços dele. Volta e meia estava soluçando. E não tinha nada a ver com bebidas, não. Nunca vi tomar mais que um chopp ou meio Campari. Mas soluçar, soluçava muito. Ic, ic, ic. Era o coaxar do nosso amor. Até chamava ele de meu sapinho. Sapinho lindo. Tentava todo tipo de artimanha para ajudar o sapinho a se livrar dos soluços. Nada adiantava. Beber copos e copos de água. Levantar os braços. Suplicar clemência para São Longuinho. Nem susto adiantava. O negócio era se acostumar e conviver com eles. Ic, ic, ic. Dia desses, resolvi dar um passo importante em nosso relacionamento. Chamei ele para conversar. E não é que quando chegou em minha casa, estava tendo mais um de seus ataque de soluço? Ic, ic, ic. Apertei a bochecha fofa dele e nos aconchegamos no sofá da sala. Querido. Eu falei. Querido, acho que está na hora de morarmos juntos. Foi a primeira vez que um susto curava os seus soluços. Sumiram na mesma hora. Mas a decepção pelo choque curativo foi tão grande que não consegui continuar com o sapinho. Sapinho lindo…

 

026

Quase entrangulei a minha ex. Seria a primeira morte por estrangulamento que usaria como arma do crime a alcinha de silicone do sutiã. Ela dizia que adorava frente única e alça de silicone. Como é possível gostar de alça de silicone? Me diz? Peito com silicone ainda vá lá.

 

027

E, para encerrar o ano, um pequeno pé na bunda de Natal.

Estou certo de que vão me criticar. Terminar um casamento por falta de pilhas? Mas a verdade é esta mesma. Explico. Casei com ela porque era completamente obcecada por organização. Sou assim também e em nossa casa nunca havia uma única meia fora do lugar. Uma faca que não estivesse com a lâmina virada para dentro na mesa posta. Um fio desencapado ou no caminho para alguém tropeçar. Aí era dezembro, era Natal, e preparamos a nossa ceia. Perfeita como sempre. O pino do peru saltou junto com o toque da campainha dos convidados. Brindamos com um tilitar cristalino à perfeição. Jantamos e lavamos todos os pratos antes de nos dedicarmos às frutas natalinas. Até que o pequeno Leo abriu o pacote de seu presente. O presente esperado, idealizado, sonhado. Um carro de controle remoto idêntico ao que dirigimos. A réplica em miniatura de nossa felicidade. Seus olhos brilhavam, os meus marejavam. Foi quando tudo desabou. Leozinho apertou o botão do controle e nada aconteceu. Nada. Clique, clique. Nada. Ela havia esquecido de colocar pilhas no carro idêntico ao nosso (que sempre estava de tanque cheio, por sinal). Um carro de controle remoto sem pilhas é Natal sem Peru. É estante sem livros. É xícara sem pires. É bandejinha de gelo sem água. Desliguei o casamento. Por falta de quatro pilhas AAA.

 

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
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