Pé na Bunda, Textos

26 de novembro de 2012

Projeto Pé na Bunda – Parte VI

Assim como alguns vinhos, nosso amor não amadureceu bem.

– Graham Greene

 

Mais uma trinca de depoimentos do Projeto Pé na Bunda:

 

016

Toda mulher precisa saber das três regras (a) nunca fale de carro, (b) nunca fale mal de carro e (c) nunca fale mal do carro do seu macho. Tudo começou quando convidei a garota para sair e ela aceitou. Nem acreditei. Cheguei às oito em ponto na frente do prédio, desci do carro, corri até o interfone, recuperei o fôlego e anunciei o seu nome: Fer-nan-da. Não era como Lolita, que faz a língua descer em três saltos pelo céu da boca e tropeça de leve contra os dentes na última sílaba, mas tinha lá sua graça. O nome terminava do mesmo jeito que eu queria que a noite acabasse. Fui grosseiro: apaga essa parte, vai. Estava eu lá, esperando e observando através da grade do prédio. Quando saiu do elevador, atravessou o hall do prédio e veio em minha direção. Parecia que deslizava. Beijou de leve o meu rosto e o perfume que usava me envolveu como um lutador de jiu-jitsu. Olhou em volta para tentar identificar o meu carro e eu levantei o queixo para apontar o Gol-bolinha estacionado do outro lado da rua. O olhar de decepção disse tudo. Aquele é o seu carro? Foi o que teve coragem de dizer. Não era nenhuma Ferrari mas estava pago. Entrei do lado do motorista e fiz que ia abrir o pino da porta do passageito. Na mesma hora acelerei “aquele carro” e sai cantando os pneus. Nunca faça pouco caso do carro de um homem. Nunca.

 

017

Lembrei do jeito que o gato fica quando está acuado, com medo de um cachorro ou coisa parecida. Ele espicha os pêlos e se contorce todo pra parecer maior e mais temeroso para o inimigo. Mas é tudo um truque de sobrevivência, na verdade ele não aumentou nadinha de tamanho. Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Quando chegamos no motel e ela tirou o sutiã eu percebi. Era tudo um truque de almofadas e enchimentos.

 

018

Algumas notícias de jornal são fabulosas. Tenho o hábito de ler alto algumas delas no café da manhã. Descobri certa vez que uma das invenções mais estranhas da era Vitoriana tinha sido uma cartola desenvolvida especialmente para espectadores de teatro. Podia ser amassada para não atrapalhar a visão de quem sentava uma fileira para trás. Quando as cortinas encerravam a peça e as luzes se acendiam, um mecanismo de molas fazia com que voltasse ao seu formato original. Claro que li essa estranheza em voz alta para a minha esposa e comecei a rir. Ela respondeu que eu precisava levar o edredon para ser lavado e que podia deixá-lo no caminho para o trabalho em uma lavanderia. O excesso de realidade fez que um mecanismo de molas devolvesse a minha condição de solteiro no mesmo instante.

 

* Ilustração de Aldo Fabrini.

** Que tal mandar os seus comentários e as suas histórias para o Tobias também? Afinal, todos nós já experimentamos, ao menos uma vez na vida, os dilemas e as angústias de uma separação – tanto do ponto de vista do pé como da bunda, não é? 😉

Tobias Silva
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